Fisioterapia é fundamental na recuperação de pessoas com deficiência

14/05/2016 Notícias 4
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Camila Napoleão (em primeiro plano) com a pequena S. na clínica-escola Unichristus, em 2014

A fisioterapia é um das ciências da saúde e pode ser aplicada tanto no tratamento quanto na prevenção de doenças. Utiliza conhecimentos técnicos e científicos para melhorar a qualidade de vida dos pacientes, por meio de recursos modernos aliados a recursos físicos e naturais. Regulamentada pelo Decreto Lei 938, de 13 de outubro de 1969, a fisioterapia tem exercido um papel importantíssimo, ao longo dos anos, na recuperação de pessoas acidentadas, idosos ou com qualquer dificuldade de locomoção ou cardio-respiratório. Para muitos, como a professora aposentada do Departamento de Química da Universidade Federal do Ceará (UFC), Célia Regina Vieira Bastos, “fisioterapia é vida” (leia mais aqui sobre Célia Regina).

O fisioterapeuta é capacitado a diagnosticar disfunções, avaliar, reavaliar, prescrever (tratamento fisioterápico), emitir prognóstico, elaborar projetos de intervenção e decidir pela alta fisioterápica. Além disto, a complexidade da profissão reside na necessidade do entendimento global do ser humano, por meio da anatomia, citologia (ciência que estuda as células do corpo humano), fisiologia, embriologia, histologia (estuda os tecidos vivos), biofísica, biomecânica, bioquímica, cinesiologia (estuda os movimentos do corpo humano), farmacologia, neurociências, genética, imunologia, além da antropologia, ética, filosofia, sociologia, deontologia (conjunto de normas e deveres que devem ser seguidos pelos médicos), e outras ciências de formação geral. De acordo com a fisioterapeuta Camila Napoleão Gouvêa, “contamos com um contexto que vai além da saúde-doença, envolvendo o psicológico e social”. Camila é formada pela Unichristus e iniciará sua especialização em Terapia Intensiva neste ano.

Ela afirma que a fisioterapia, para pessoas com deficiência, é “fundamental”, pois vai desde a prevenção até, se possível, a reversão de algum fator. “A pessoa com deficiência precisa também de orientações que podem ajudar na melhora de qualidade de vida e adaptação com seu quadro atual”, diz ela. Contudo, cada caso é um caso e cada deficiência exige uma abordagem específica do profissional. Ainda segundo ela, o tratamento deve se iniciar o quanto antes, a partir da liberação do médico. A também fisioterapeuta Neuma Silveira (leia aqui entrevista com Neuma Silveira) defende que se aja o mais prematuramente possível. “A criança nasceu, você já começa”, afirma. Mas, alerta que o trabalho deve ser gradativo, respeitando as condições do paciente. Crianças com Síndrome de Down, por exemplo, apresentam atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor, ou seja, têm a parte motora e cognitiva comprometidas. “Muitas crianças com Down apresentam episódios recorrentes de pneumonia de repetição. A fisioterapia age tentando tornar o desenvolvimento motor o mais normal possível, evitando luxações com fortalecimento muscular e evitando complicações cardiopulmonares”, ensina Camila Napoleão.

Camila Napoleão examina a pequena E.C., paciente de raquitismo, no Hospital Infantil Albert Sabin

Ainda como ganho de força muscular, Camila cita a hidroterapia e a equoterapia como recursos adicionais. “A água é importante para esse objetivo, pois gera um alto grau de resistência para ser vencido. Outro recurso que está sendo bastante utilizado é a equoterapia, onde a interação com o animal leva, ao paciente, meios de socialização, concentração, equilíbrio, coordenação motora, conscientização postural”, afirma a profissional. Esses dois recursos são utilizados também no tratamento de pacientes com Paralisia Cerebral (PC). “A PC é muito abrangente e tem diversos graus de comprometimento, sendo muito fragmentada”, diz Camila. Segundo ela, em alguns casos, há grande comprometimento motor, impossibilitando a marcha (o andar) e, em outros, é menor. No entanto, neste último, verifica-se comprometimento neurológico, obrigando o profissional a agir de forma específica para cada caso. “Os objetivos gerais são estimular a propriocepção (capacidade de reconhecer a localização espacial do corpo), prevenir e/ou tratar doenças respiratórias e trabalho motor”, afirma a fisioterapeuta.

Fátima Braga, presidente da Associação Brasileira de Amiotrofia Muscular Espinhal (ABRAME) e mãe do adolescente Lucas, portador de AME tipo I conta que ele faz fisioterapia desde os três meses de vida. “No início da evolução da doença, Lucas era submetido à fisioterapia motora para manutenção muscular pela hipotonia”, afirmou (leia aqui artigo de Fátima Braga). Aos quatro meses, ele bronco aspirou e, a partir daí, a fisioterapia respiratória passou a ser imprescindível. Ele foi traqueostomizado e, respirando por aparelhos, passou a fazer fisioterapia todos os dias, duas vezes ao dia. Hoje, adolescente, Fátima conta que Lucas faz uma sessão de respiratória pela manhã, com a ajuda da Confort Cough (máquina de tosse), e fisioterapia motora à tarde. “Lucas tem uma excelente qualidade de vida, praticamente não tem deformidades físicas, não tem pneumonias, muito menos infecções respiratórias de repetições como acontece em muitos portadores por conta da progressão da doença”, diz. Ele é atendido pelo serviço de Home Care da Unimed Fortaleza e pelos profissionais Reinaldo Negreiros, fisioterapeuta respiratório, e Victor Vasconcelos, fisioterapeuta motor (leia aqui matéria sobre Fátima Braga e a AME).

Questionada sobre algum caso em que tenha trabalhado, Camila cita a pequena S. (o nome dela foi omitido por Sem Barreiras para preservar a identidade da criança). S. era uma paciente portadora de paralisia cerebral, de baixa renda, que chegava ao atendimento sempre com queixas de falta de ar, impossibilidade de locomoção (restrita a cadeira de rodas) e problemas posturais como consequência. “Após um ano de trabalho fisioterápico, apoio familiar, nutricionista, Terapeuta Ocupacional e outros profissionais empenhados, ela estava se locomovendo com andador e já não sentia mais falta de ar”, conta. A postura da garota tinha melhorado e tudo isso refletiu no melhor desempenho escolar, na socialização e na vontade de dar continuidade ao tratamento. Esse exemplo ilustra os benefícios na vida social da pessoa com deficiência que a fisioterapia pode proporcionar, além da importância do trabalho multidisciplinar e da participação da família no processo. Neuma Silveira acredita que a participação dos pais e da família é importantíssima, pois o fisioterapeuta passa pouco tempo com o paciente. “Em uma família presente, que incentive e estimule, o resultado é outro”, diz ela.

Camila Napoleão examina a pequena E.C., paciente de raquitismo, no Hospital Infantil Albert Sabin

A importância do tratamento precoce se verifica no raquitismo, doença da infância e adolescência provocada pela carência de vitamina D e que se caracteriza pela baixa mineralização dos ossos. Camila Napoleão afirma que, quando identificado precocemente e tratado, o raquitismo não gera muitos problemas para a criança. No entanto, quando há atraso no tratamento, o paciente apresenta complicações motoras e respiratórias. Assim, “os objetivos gerais da fisioterapia são diminuir deformidades ou incapacidades, terapia de reexpansão e, quando necessário, desobstrução pulmonar, auxílio na deambulação (ato de se mover, andar) e melhoria da força muscular”. Um caso em que Camila atuou, durante seu período de estágio, foi da pequena E.C. (Sem Barreiras preserva a identidade da menor), que chegou ao Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS) aos quatro anos de idade com raquitismo renal. Por não ter feito um tratamento adequado, E.C. apresentava alterações metabólicas que culminaram em fraturas, desnutrição grave, pneumonia e alterações ósseas. Em abril desse ano, após dois anos de tratamento intensivo no HIAS, ela recebeu alta e pôde voltar pra casa, em Quixeramobim (cidade dos Sertões Cearenses, a 203km de Fortaleza).

Um tratamento fisioterápico, no entanto, costuma ser demorado e caro, pois se utiliza de diversos recursos e equipamentos específicos, como esteiras, barras de apoio, respiron para fisioterapia respiratória, bicicleta ergométrica, ultra-som, aparelho de TENS (Neuroestimulação Elétrica Transcutânea, na sigla em inglês) e FES (Estimulação Elétrica Funcional, na sigla em inglês), monitor cardíaco, oxímetro, elevador subaquático e vários outros. Isso torna o tratamento inacessível para pacientes de baixa renda. Nesses casos, Camila Napoleão aponta clínicas-escola de faculdades e universidades como a solução. Segundo ela, o trabalho é feito por alunos do último ano, supervisionados por professores. Um desses locais é o Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami), da Universidade de Fortaleza (Unifor), que realiza atendimentos médicos, análises laboratoriais, vacinação, serviços de imagem, enfermagem, fisioterapia, nutrição, psicologia, fonoaudiologia, serviço social e terapia ocupacional. Outros locais são o Núcleo de Tratamento e Estimulação Precoce (Nutep) da UFC, que atende a crianças de 0 a 12 anos sob risco de distúrbios de desenvolvimento neuropsicomotor e sensorial e Clínica-Escola de Saúde – Unichristus, com atendimento gratuito em vinte especialidades.

Serviço:
Nami – Rua Desembargador Floriano Benevides, 221 – Edson Queiroz – telefone: 85 3477.3611
Nutep – Rua Papi Jr., 1225 – Rodolfo Teófilo – telefone: 85 3223.4522
Clínica Escola de Saúde – Unichristus – Rua João Adolfo Gurgel, 133 – Cocó – telefone: 85 3265.8100

* Nota do Blog: As fotos com crianças tiveram seus rostos distorcidos para preservar suas identidades

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4 Comentários

  1. Neuma Silveira 15/05/2016 Responder

    Valeu Victor , parabéns pela matéria!!!!
    Muitoooo boa!!!

    • Victor Vasconcelos 16/05/2016 Responder

      Obrigado, dra Neuma. Grande abraço.

  2. Célia Regina Vieira Bastos 15/05/2016 Responder

    Excelente Victor divulgação e estímulo! Parabéns !

    • Victor Vasconcelos 16/05/2016 Responder

      Obrigado, Célia. Grande beijo.

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