Fisioterapia contribuiu na minha autodescoberta e autocrescimento

14/05/2016 Deficiência Motora, Depoimentos, Histórias de vida, Notícias 2
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Jornalista Victor Vasconcelos realiza tratamento com FES

Após trinta e nove anos de sedentarismo e abandono das preocupações com meu peso, a vida cobrou seu preço. Há cerca de três meses, comecei a sentir fortes dores de cabeça enquanto estava deitado. O que me chamou a atenção foi o fato da dor desaparecer quando me levantava e vinha a minha cadeira de rodas. Conversando com meu clínico, doutor Felipe Neri, ele levantou a hipótese do problema ser postural. Nada mais coerente, pois jamais fiz qualquer tipo de exercício localizado ou me preocupei com questões básicas como forma correta de me sentar, respirar e me mexer. Sempre fiz isso da forma como podia ou como me convinha. Como falei, a vida cobrou seu preço e precisei correr atrás do tempo perdido, tentar diminuir o prejuízo. Entrei em contato com a amiga Célia Regina, também portadora da Osteogênese Imperfeita, e perguntei se ela fazia algum tipo de acompanhamento físico e ela disse que sim. Na verdade, Célia é o oposto do que eu sou (leia mais aqui sobre Célia Regina). Ela nada e faz fisioterapia diária há anos. Eu parei de nadar ainda na minha adolescência. Então, ela me indicou a doutora Neuma Silveira, fisioterapeuta (leia aqui entrevista com Neuma Silveira).

Doutora Neuma veio a minha casa e trouxe com ela a doutora Camila Napoleão. As duas fizeram uma espécie de exame físico em mim, conheceram um pouco da minha rotina e disseram o que seria importante eu fazer a partir dali. Doutora Camila assumiu o trabalho comigo e, há pouco mais de um mês, estamos nos encontrando todos os dias, de segunda à quinta-feira. Já começo a dizer que os resultados estão aparecendo, ainda que de forma bem lenta. É muito pouco tempo de fisioterapia para compensar trinta e nove anos de sedentarismo. Contudo, ela diz que já há resultados físicos, musculares e eu concordo. Em termos respiratórios, posso atestar que também há. Principalmente, na minha conscientização do que estou fazendo errado e em que devo melhorar. No entanto, a principal diferença que percebo é na minha consciência de que é preciso fazer alguma coisa e tenho feito. Mesmo sem ela, de sexta a domingo, procuro continuar me exercitando da maneira que posso. As melhorias que citei acima, por mais incipientes, servem de estímulo e fiquei curioso para saber como serei daqui a algum tempo.

Minha relação com a Camila é outro ponto a se ressaltar. Acredito que a interação fisioterapeuta-paciente é fundamental. É necessário haver respeito e confiança mútuos, além de uma boa interação pessoal. Camila é jovem, mais jovem que eu, e tem uma personalidade parecida com a minha. Isso ajuda. Muitas vezes, sinto que me esforço um pouco além da conta por causa dela, em reconhecimento ao trabalho que vem fazendo comigo. Brinco que ela adora me fazer sofrer, me torturar com o aparelho de choques dela, mas é uma brincadeira sadia. Camila também demonstra grande preocupação com minha condição óssea, sempre dosando a força que me obriga a fazer. Como conheço bem meu corpo e minhas limitações, vou orientando e dizendo até onde ela pode ir. Como portador de OI, já tive mais de cinquenta fraturas. Verdade que essas fraturas foram até meus quinze anos – uma característica da doença é diminuir a incidência de quebras a partir da puberdade. Porém, todo cuidado é pouco.

Apesar da incidência de fraturas ter diminuído consideravelmente, o estrago emocional foi feito. Até hoje, tenho muito medo de voltar a quebrar e isso incide, diretamente, no meu problema postural. Além da escoliose, meus músculos são extremamente rígidos pelo medo que sinto e pela posição defensiva que assumo ao ser erguido da cadeira de rodas, da cama ou mesmo andando na rua. Andar de taxi, os adaptados, ainda é um desafio. Permitir que pessoas estranhas ou sem experiência empurrem minha cadeira, também. Costumo brincar que tenho orgulho de dizer que sou frouxo, mesmo que não acredite nisso. Às vezes, eu me pergunto se uma pessoa frouxa teria aguentado o tanto que aguentei. Não é fácil a sensação de quebrar um braço ou uma perna por coisas ridiculamente pequenas, como um susto ou um gesto um pouco mais brusco. É uma sensação de impotência e revolta extrema. Sem Barreiras, em um determinado momento, tornou-se um vilão. Isso porque ele me fez me deparar com certas situações que jamais encarei antes. Eu jamais frequentei reuniões de pessoas com OI, por exemplo. Confesso que criei uma ilusão de como as pessoas me viam e, ao estar frente a frente com um cadeirante igual a mim, essa ilusão se desfazia, pois eu via a pessoa como os outros me viam.

Eu sei que a fisioterapia não tem o propósito de acabar com isso, mas ela pode ajudar. Pode ajudar no sentido de me fazer sentir melhor e mais confortável com meu corpo. De me fazer olhar no espelho e não ter vergonha ou me sentir mal. Sou cadeirante, sou portador de Osteogênese Imperfeita e isso implica em certas características, certas deformações físicas. Sempre me vangloriei de uma frase que meu pai usava na minha adolescência: o tamanho do homem é medido dos olhos pra cima. Hoje, no entanto, vejo que ainda não absorvei inteiramente o conceito dessa frase. Escrever esse texto não está sendo fácil. Estou me sentindo exposto, vulnerável. Poucos anos atrás, eu jamais escreveria, pois odeio o sentimento de vulnerabilidade. A maturidade, contudo, nos faz rever certos conceitos e, às vezes, mostrar-se vulnerável não é de todo ruim. Sou um ser humano, com defeitos e qualidades. Esconder os defeitos não ajuda a deixar as qualidades mais visíveis. Assim, cá estou. É uma longa jornada de autodescoberta, autocrescimento. Doutora Neuma disse, no dia da sua avaliação, que tudo na vida tem um tempo certo. Talvez tenha chegado o tempo de me expor e cuidar de mim um pouco mais.

* Legenda da foto principal: Doutora Camila Napoleão ministrando fisioterapia respiratória em Victor Vasconcelos, com o aparelho Respiron

** Texto de Victor Vasconcelos, criador e editor de Sem Barreiras

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2 Comentários

  1. Célia Regina Vieira Bastos 15/05/2016 Responder

    Victor Antes tarde do que nunca!Parabéns seu relato , fisioterapia, já melhoras físicas e emocionais em tão pouco tempo com Dra Camila Napoleão!Parabéns tb a ela jovem fisioterapeuta está conseguindo o melhor , inicialmente avaliação Dra Neuma Silveira, competente fisioterapeuta que me acompanha há muitos anos! Realmente nunca deixei nadar mesmo períodos mais difíceis minha vida. Lecionava Química UFC, fazia mestrado e noite nadava. Realmente fisioterapia passei fazer intensivamente com Dra Neuma após minha aposentadoria mas sempre Apt fazia mesmo sozinha exercícios ensonados por Meus ortopedistas !E vamos divulgar estimular Fisioterapia,Natação Qdo possível aos portadores de deficiência física especialmente portadores de Osteogenesis Imperfeita ! Excelentr matéria bjs❤️

    • Victor Vasconcelos 16/05/2016 Responder

      Obrigado, Célia. Grande beijo.

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