Feliz Dia dos Pais a todos

12/08/2017 Deficiência Motora, Notícias, Victor Vasconcelos 2
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O texto de hoje é particularmente especial e, por esta razão, está entrando no ar com 24 horas de atraso, mas também 24 hs de antecedência em relação aos seus homenageados. Refiro-me, como já devem ter suposto, ao Dia dos Pais, comemorado nesse dia 13 de agosto. Ao longo da minha vida, tenho feito muitas homenagens a minha mãe, em artigos, comentários, brincadeiras. Contudo, poucas a meu pai. Por que isso? Talvez por ele não ter redes sociais (as tentativas de lhe inscrever em facebook, twitter ou whatsapp se mostraram infrutíferas) ou talvez pelo fato de meu relacionamento com minha mãe, em se tratando do campo pessoal, ser mais tranquilo e mais íntimo. Não sei a resposta correta, reconheço. Lembro-me de duas ocasiões em que me espantei com a reação dele. A primeira aconteceu muitos anos atrás, não posso precisar quantos, no sítio de uma irmã dele. Eu era criança e estava na piscina. À época, não sabia nadar ainda e ficava me segurando na escada e brincando, soltando e voltando a me segurar. Em uma dessas soltadas, alguém se mexeu e formou ondinhas na água, que me empurraram para longe da escada. Fui parar no centro da piscina, sozinho. Após um momento de susto, percebi que poderia nadar sozinho e fui até a borda, onde estavam papai e mamãe. Quando eles me viram, papai desabou no choro. Não entendi nada, então. Hoje, compreendo perfeitamente e me emociono, imaginando o que se passou na cabeça dele.

A segunda ocasião mencionada acima foi na minha defesa de monografia, em 2000. Nos agradecimentos, dediquei aquele trabalho aos dois, os grandes alicerces da minha vida física e, principalmente, emocional. Sem eles, certamente, não teria chegado aonde cheguei e não seria quem eu sou. Novamente, papai caiu no choro, comprovando um lado dele que poucos conhecem: o lado emotivo. Papai é daquelas pessoas que não demonstram suas emoções com facilidade (herdei esse traço dele). Entanto (relembrando um velho amigo que nos deixou, Neno Cavalcante, e que tinha grande carinho por ele), papai nos surpreende. Um terceiro momento que posso citar foi após a morte de um de seus irmãos. Ele voltou do enterro, foi ao meu quarto, sentou-se em minha cama e começou a falar desse irmão. De repente, começou a chorar e me abraçou. Como eu disse, não sou afeito a explosões emocionais e, nesses momentos, não sei como agir. Fico absolutamente sem jeito, travado. Não sei se abraço a pessoa também, se falo alguma coisa ou se, simplesmente, fico em silêncio. Optei pela terceira nesse dia. A idade trouxe a ele uma frequência maior nessas explosões.

Meu pai é uma pessoa singular. Médico do tempo antigo, tempo em que os profissionais não tinham como objetivo ganhar dinheiro, como hoje, mas atender a seus pacientes da forma mais humana possível. Papai era incapaz de deixar pacientes esperando trinta, sessenta, noventa minutos porque ele estava em outro emprego ou tratando de assuntos pessoais. Nos dias de hoje, isso é tão comum que já causou reações violentas nele quando na condição de paciente. Papai saiu de casa, por décadas a fio, antes das sete da manhã para ir trabalhar. Seus pacientes chegam cedo na Santa Casa de Misericórdia porque sabiam que ele também chegaria. Em um ocasião, cheguei na escola tão cedo que ela ainda estava fechada. Outra particularidade é que sempre o tivemos na mesa durante as refeições. Papai nunca admitiu almoçar ou jantar fora de casa por causa de trabalho ou fora do horário certo: meio dia em ponto era o almoço e dezoito horas, o jantar. Se quiséssemos saber as horas e não tivéssemos relógio, bastava ver quando ele se levantava para almoçar e jantar. Era pontual, SEMPRE. Ficava incomodado (e ainda fica) se alguém viesse almoçar e chegasse atrasado. “Ele(a) não sabe a hora do almoço (ou jantar) daqui de casa não”? Muitos sabiam, mas poucos tinham a sua pontualidade e sua disciplina.

Aprendi com papai a gostar de futebol e a torcer pelo Vasco da Gama e o Fortaleza. Aprendi a gostar de filmes antigos e músicas clássicas, da época de ouro do rádio. Aprendi a ser homem, honesto, responsável e, acima de tudo, aprendi a ser deficiente com ele. Aprendi, por exemplo, que não sou menor ou menos importante que ninguém por causa da minha cadeira de rodas ou minha deficiência. Aprendi que meu caráter e minha personalidade definiriam quem eu sou e quem eu seria. Papai me ensinou a encarar com leveza e brincadeira os olhares preconceituosos que eu recebia na rua ou as perguntas indiscretas – “ele fala”? Papai dizia: “Sei não. Você fala, meu filho”? Com ele, também a aprendi o sentido de família e a gostar de política (hoje, a criatura se virou contra o criador, pois temos embates sérios em casa por causa de política). Aos 82 anos, doutor Gerardo ainda é um mistério, ainda nos surpreende. Aos 82 anos, posso dizer que ele vive um dos seus momentos mais tranquilos e é particularmente especial conviver com ele. Depois de se aposentar, deu um chute em certas convenções sociais. Como mamãe costuma dizer, perdeu o senso e o pudor. Um dia, uma amiga (não vou citar o nome porque não tenho sua autorização) foi ao banheiro e ele lhe perguntou se era bolo ou água (os mais fortes entenderão). Ela não entendeu no início, mas eu furei um buraco no chão e me enterrei. Pouco depois, ela começou a gargalhar. Esse é papai. Conquista as pessoas com enorme facilidade. Sua carranca parece ser afrodisíaca.

Papai tem cinco filhos, quatro são homens. Perguntado por que nenhum deles se chama Gerardo Filho, ele responde: “Pras pessoas dizerem Gerardo Filho da Puta”? Assunto encerrado. Fiquemos com Yuri, Erich, Igor e Victor. Fiquemos também com Marge, a primogênita, bendita sois vós entre os homens. Em compensação aos quatro filhos homens e uma mulher, papai tem sete netas mulheres e apenas dois netos homens. “Ave Maria, botei um monte de homem no mundo e nenhum sabe me dar um neto”? Até o nascimento de Kayo, o mais novinho, o único neto homem era filho da mulher, Lucas. Quase todos eles e, certamente, todos os filhos, conheceram outra característica de papai: o de contador de histórias. À noite, íamos para a cama, ansiosos pelas histórias do Rio do Cocó e sua turma – Formiguinha da Barriga Vermelha, sua irmã Formiguinha da Bunda Grande, a Veinha, o Bebo do Cocó, seu cachorro Tião, o Macaco Véi, Dona Coruja e seus filhinhos (Coru, Corujá, Corujajá, Corujacuracurá), o Caranguejo do Pé Quebrado, o Lobo Mau que depois virou Lobo Mau Bom, Piolho de Cobra, os cachorros Bom, Popi, Feroz, os gatinhos Rabinho Branco (era todo preto, mas tinha o rabo branco) e Rabinho Preto (era todo branco, mas tinha o rabo preto). Essas histórias eram lendárias na família, nós vibrávamos com elas. Uma pena que ele nunca colocou em um livro para publicação. Quem sabe esse livro não sai um dia?

São inúmeras as histórias com o pai médico, pai amigo, pai companheiro, pai torcedor de arquibancada ou de sofá, conselheiro, adversário(?) político. Em poucas semanas, nos mudaremos e iniciaremos uma nova etapa da vida. Para mim, deverá ser moleza. Aos 40 anos, uma mudança não pode ser tão dramática, mas, para ele, é diferente. Ele e mamãe construíram essa casa e criaram nossa família. São 45 anos de história, cinco filhos, nove netos, cinco cachorros, alguns gatos, inúmeros passarinhos e outros bichos. Aos 82 anos, ele é a cola que nos mantém unidos e não permite que nos afastemos tanto. Nem mesmo dois AVC’s e infartos o derrubaram. Ao contrário, o deixaram mais forte e mais digno de orgulho, admiração e exemplo. Feliz Dia dos Pais a todos os pais de deficientes ou não. Feliz Dia dos Pais ao meu pai, Gerardo. Te amo, doutor.

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2 Comentários

  1. Melânia 13/08/2017 Responder

    Teu pai é mesmo um grande homem, meu filho.

  2. Igor 13/08/2017 Responder

    Clap clap clap clap.

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