Pessoas com deficiência não são seres assexuados

25/08/2017 Deficiência Motora, Notícias, Victor Vasconcelos 1
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Nesta semana, mais precisamente na última quarta-feira, 23, realizei a terceira entrevista para meu livro ENTREVISTAS SEM BARREIRAS, que será lançado no primeiro semestre de 2018. O entrevistado foi Alexandre Mapurunga e o tema, o Transtorno do Espectro Autista. Alexandre é filho de Fátima Dourado, uma das nove mães que criaram a Casa da Esperança, local de acolhimento, educação e acompanhamento de autistas, e é também secretário-geral da Abraça (Associação Brasileira de Ação por Direitos da Pessoa com Autismo). A conversa de cerca de 1h45min foi extremamente agradável, descontraída e rica de conteúdo, tanto para mim quanto, certamente, para a jornalista Régia Honório, que esteve comigo na ocasião. Entretanto, esse texto não será sobre a entrevista, mas sim um aspecto abordado por ele. Alexandre nos falou sobre o 1º EBA (Encontro Brasileiro de Pessoas Autistas), que se realizou em Fortaleza, em 2016, e um dos temas amplamente discutidos, por sugestão dos próprios autistas, foi relacionamento e sexualidade.

Segundo relato dos autistas presentes ao EBA, eles sofrem enormes dificuldades para exercer sua sexualidade e ter relacionamentos amorosos. E não, não é só preconceito ou rejeição dos possíveis parceiros. Essa dificuldade está em casa. As famílias, por ignorância, falta de informação ou medo, proíbem seus filhos de, sequer, falar no assunto. Evitam perguntas, explicações e castram, até mesmo, o ato de masturbação e conhecimento do próprio corpo. O relato de Alexandre é impressionante e chocante. Algumas famílias, pasmem, buscam a esterilização de seus filhos, um ato de violência sem precedentes. O resultado de tamanha selvageria são jovens em idade sexual, no auge da puberdade, experimentando as mudanças naturais de seu corpo e não entendendo o que está acontecendo. Jovens que se sentem atraídos por alguém e os abordam de forma atabalhoada, sem a sensibilidade e o traquejo necessários. O autismo faz isso, impede as pessoas de entenderem as minúcias das relações sociais, da abordagem, da conversa, dos sinais do corpo. Contudo, a castração que sofrem em casa torna esse quadro ainda mais grave. Coloquem-se no lugar de um jovem autista, que conhece uma moça ou um rapaz, sente-se atraído por ela(e), sente tesão em bom português, e não sabe o que é aquele sentimento, não entende as reações hormonais do seu corpo e ainda ouve em casa que aquilo é errado.

Alexandre Mapurunga nos revelou que cerca de 90% das mulheres com autismo sofrem alguma violência sexual e cerca de 40% dos homens. Ou seja, de cada dez mulheres autistas, nove sofreram, sofrem ou vão sofrer violência. É um número extremamente alarmante. As razões são variadas e começam pela falta de informação em casa. Contudo, não para por aí. Estudos mostram que estupradores costumam procurar suas vítimas em pessoas com alguma vulnerabilidade, que pode ser social, financeira, etária ou de condição física. No Brasil, uma em cada três mulheres sofre risco de estupro todos os dias e, entre as crianças, a estatística mostra a relação de uma para cada cinco. Vemos esses casos nas escolas – relação entre professor e aluno –, no trabalho – chefe e subalterno, em casa – pai e filho(a), tios, primos e mesmo maridos e esposas. A deficiência intelectual figura entre os casos mais graves de vulnerabilidade. Primeiro, porque elas não têm o discernimento necessário para perceber o perigo que se aproxima ou que já está ao seu lado; segundo, porque não entende, adequadamente, o que é assédio, sexo, beijo, abraço; por fim, porque as pessoas com deficiência intelectual enfrentam enorme preconceito das autoridades no momento de denunciar uma agressão. Especificamente o autismo convive com mitos que jogam contra ele, como, por exemplo, o de que vive em seu próprio mundo. Assim, uma denúncia de estupro é, facilmente, interpretada como fruto de sua imaginação.

O site Bengala Legal relata alguns casos de estupro cometidos contra pessoas com alguma deficiência ou contra idosos. O primeiro desses casos é o de uma idosa, internada em um hospital público por causa de um transtorno mental. Sua história de que foi violentada foi ignorada a princípio, pois as autoridades acreditaram que o relato era resultado de sua condição mental. Foi necessário que mais três estupros ocorressem no mesmo hospital para que providências fossem tomadas. O segundo caso relatado pelo site Bengala Legal é o de uma jovem de 17 anos, que sofria de cegueira por conta de uma lesão na infância. Ela caminhava pelas ruas de seu bairro quando foi atacada por um homem e estuprada em um matagal. Naturalmente, ela não pôde identificar seu agressor pela fisionomia, mas o fez pela voz e ele foi condenado. Nesse caso, em específico, a adolescente possuía uma audição bem aguçada, mas nem todos os cegos a possuem. O terceiro caso é o de um homem de 32 anos, com visão monocular (enxerga apenas com um olho). Ele serviu o exército e foi estuprado três vezes durante esse período e outras duas após retomar a vida civil. O último caso mostra que não apenas as mulheres estão sujeitas à violência sexual. Quem quiser ler a matéria completa, clique aqui.

É importante ressaltar que a sexualidade é um componente natural dos animais – irracionais ou racionais, nós. Sentir-se atraído por Maria ou João foge ao nosso controle, assim como foge não se sentir atraído por ninguém. O que podemos controlar é o ato de proibir ou incentivar a sexualidade. Infelizmente, nesse ponto, sou obrigado a colocar meu dedo na ferida religiosa. A Igreja Católica pode e deve ser questionada e apontada como responsável por parte dos preconceitos que rondam nossa sociedade. A rejeição histórica, por exemplo, aos homossexuais; a crítica ao uso de preservativos; o celibato de padres e freiras. Todos esses dogmas têm um ponto em comum: o preconceito da Igreja à sexualidade. Proibir padres e freiras de darem vazão aos seus desejos carnais e impor o rótulo de PECADO a eles é um comportamento totalmente antinatural. Não sou católico, mas sempre ouvi uma frase, supostamente, dita por Jesus Cristo: “crescei-vos e multiplicai-vos”. A Igreja Católica fez um pequeno adendo: “crescei -vos e multiplicai-vos, desde que não sejais padre, freira, bispo, cardeal”. Mas, enfim, esse tema é polêmico e a coluna não versa sobre religião, mas deficiência e recorro a uma matéria de Sem Barreiras, de 12 de junho passado (aqui), Dia dos Namorados. Leia mais aqui e aqui.

A matéria acima citada afirma: “A repressão da sexualidade, nestes indivíduos [com deficiência intelectual], pode alterar seu equilíbrio interno, diminuindo as possibilidades de se tornar um ser psiquicamente integral. Por outro lado, quando bem encaminhada, a sexualidade melhora o desenvolvimento afetivo, facilitando a capacidade de se relacionar, melhorando a autoestima e a adequação à sociedade”. Nesse mesmo texto, retirado do site A Deficiência, o autor cita a sociedade patriarcal, em que a sexualidade gira em torno do prazer masculino e, por consequência, da penetração. É o chamado “poder do falo”. Contudo, sexualidade é muito mais do que isso. Envolve sentimentos, troca de afetividade, carinho, respeito, companheirismo. O físico, portanto, não deve ser o protagonista. Não precisamos ser uma Juliana Paes ou um Thiago Lacerda para sermos seres sexuais. Basta termos a capacidade de sentir, de nos emocionar, de nos entregar e de receber a entrega do(a) outro(a) e isso, as pessoas com deficiência têm. Durante muito tempo, eu me autoboicotei em termos de relacionamentos por acreditar que não seria capaz de atrair a pessoa por quem eu me interessava à época. E me refiro, também, a sexo. Pessoas com deficiência, salvo exceções, têm limitações sexuais, em termos de movimentação, posições, etc. O(A) parceiro(a) terá de entender e aceitá-las para que a relação seja plena para ambos. No meu caso, não dei a oportunidade de ser aceito por medo de ser rejeitado e deixei as oportunidades passarem.

Caminhando para a conclusão desse texto, cito o tema da campanha do 1º Encontro Brasileiro de Pessoas Autistas: “Sou autista: tenho direito ao meu próprio corpo”. Sim, todos nós temos direito ao nosso corpo, as nossas emoções, nossos sentimentos, nossos desejos, nossos relacionamentos. Uma pessoa com deficiência não é diferente de ninguém, porém é tratada diferente. Essa diferença se dá na castração familiar, nos dogmas excludentes, nas ideias pré-concebidas das pessoas e até mesmo na dificuldade de esse encontrar um motel acessível. Pode parecer bobagem esse último argumento, mas é extremamente constrangedor levar a pessoa a um motel e ir embora por não ter acesso. O preconceito é filho da desinformação com a falta de cultura. Se não educarmos nossa sociedade, não mudaremos esse e muitos outros aspectos da nossa vida. Comentem, deixem suas opiniões acerca desse tema e, se quiserem, contem histórias e experiências que vivenciaram ou conhecem. Será bastante rico para o debate. Acessibilidade e cidadania andam juntas.

“É dever do Estado, da sociedade e da família assegurar à pessoa com deficiência, com prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à sexualidade, à paternidade e à maternidade, à alimentação, à habitação, à educação, à profissionalização, ao trabalho, à previdência social, à habilitação e à reabilitação, ao transporte, à acessibilidade, à cultura, ao desporto, ao turismo, ao lazer, à informação, à comunicação, aos avanços científicos e tecnológicos, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comunitária, entre outros decorrentes da Constituição Federal, da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo e das leis e de outras normas que garantam seu bem-estar pessoal, social e econômico” (Art. 8º – Lei Brasileira de Inclusão).

* Foto em destaque é do blog Casadaptada

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1 Comentário

  1. Francisco 26/08/2017 Responder

    Gostei bastante
    Esclarecedor

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