Não sou a ‘regra’?

11/10/2017 Deficiência Motora, Leandra Migotto, Notícias 1
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Queridas e queridos leitores do Sem Barreiras, mas uma vez escrevo minha coluna com um mega atraso! Agradeço por compreenderem a demora e a mudança de assunto. Prometi falar sobre a Reforma da Previdência Social, mas infelizmente, não consegui obter informações a respeito. Continuo pesquisando e espero conseguir escrever sobre este assunto tão importante e necessário… Mas, agora lhes presenteio com um trecho muito especial do meu futuro livro… Espero que apreciem e comentem!

Não sou a ‘regra’. Sobrevivi quando a medicina me sentenciou. Fraturei vários ossos pelo corpo todo, andei com 5 anos, cresci até 96cm. Fui segregada em escolas exclusivas e trabalhei em empresas pseudo-inclusivas. Sou Bacharel em Comunicação Social. Recebi prêmios internacionais pelos meus textos. Viajei sozinha para fora do Brasil, desfilei em escolas de samba, curti muito a vida noturna, ganhei campeonatos de natação. Aos 40 anos uso uma cadeira de rodas para me locomover. Se fosse ligar para os comentários de todos que me olham na rua, morreria de tristeza. Eu não sou triste. Fico triste, como todas as pessoas. E não sei o motivo, mas GOSTO muito de viver!

Para mim a vida é um doce que se saboreia lentamente. Não escolhi nascer, muito menos assim. Tenho pernas pequenas. Ossos bem fracos e tortos. Sou totalmente diferente do que se convencionou como “mulher padrão”. Nos Anos 30, teria sido esquecida no quartinho dos fundos. No início do século XX, ficaria trancada em uma igreja. Na Idade Média, teria sido afogada ao nascer. O ‘diferente’ sempre assusta porque incomoda e toca na maior ferida humana: sua natural fragilidade e finitude. A inata imperfeição de todos os seres não tem lugar na sociedade da beleza plastificada e da suposta simetria.

Acredito que cada ser humano vive em seu ‘universo interior’ a diversidade de como está no mundo. Ser considerado ‘diferente’ do que a sociedade convencionou como ‘padrão’ por nascer com uma deficiência física é um ganho e uma perda ao mesmo tempo. Fazer parte ‘não sendo parte’, é dolorido, confuso, forte, enlouquecedor; ao mesmo tempo, que é único, especial, instigante, interessante, e até prazeroso.

Hoje não tenho mais aquela ânsia de provar que conseguia alcançar vôos bem mais altos do que o corpo permitia. Mergulhei bem fundo na dor do encontro com a frustração de não ser quem desejava ser. Despedacei. Acabei me perdendo e até ficando desorientada. Deprimi. Tive medo. Vontade de ir embora para sempre. Ser quem eu sou pesa. Cansa. Enjoa. A sensação de prisão permanece mesmo se libertando por meio da escrita. Não sou obrigada a aceitar e me resignar. Porém, nadar contra a corrente não vai levar a lugar nenhum a não ser à loucura e mais dor. Talvez, eu nunca aceite a casa que habito – a ferida não cicatrize – ou eu aceite e viva feliz. Talvez tenha que ser assim porque já estava escrito.

Ultrapassei com coragem as barreiras impostas por aqueles que me discriminaram, quebrando os meus próprios preconceitos. Mas ainda passo por momentos de crise, dor, desânimo, tristeza e até um pouco de desespero. E mesmo assim, gosto de aproveitar as coisas mais simples da vida. Para mim a DIVERSIDADE faz parte da vida.

A tragédia mora no mesmo lugar que a benção. Aprendi que a perfeição e a normalidade não existem no Planeta Terra, e não é o mundo que se tornou diferente, ele sempre foi assim! Vivemos em uma sociedade que incorpora – ainda que às vezes não inclua completamente – diversas culturas, opiniões, crenças e pessoas diferentes! Podem existir certas semelhanças entre uma e outra pessoa, mas o que mais salta aos olhos são nossas diferenças. O ser humano nunca termina de ser. Está sempre crescendo e se transformando continuamente, até o dia em que morre.

Tornei-me jornalista porque encontro nas palavras o aliado que preciso para denunciar a enorme discriminação que as pessoas com deficiência ainda passam. As palavras me conduzem a cada amanhecer. Desde menina sinto a grande necessidade de colocar no papel tudo o que vejo, ouço, sinto e faço como a forma que encontrei para registrar e compartilhar minha passagem pelo Planeta.

Acredito na solidariedade como um dos únicos sentidos da vida. Temo a artificialidade das pessoas em um mundo tão egoísta. Eu gosto de compartilhar! Gosto de me solidarizar! Eu amo ajudar quem precisa. Gosto de estar ao lado de pessoas pra cima. De pessoas que se permitem sentir prazer. De pessoas que se amam. De pessoas que sonham. De pessoas que vivem cada minuto lutando com todas as suas forças para realizar seus sonhos.

Pessoal, não esqueçam de conhecer a minha trajetória profissional em meus dois blogs: o Caleidosópiohttp://leandramigottocerteza.blogspot.com/ e o Fantasias Caleidoscópicashttp://fantasiascaleidoscopicas.blogspot.com/

Perfil profissionalhttp://www.linkedin.com/pub/leandra-migotto-certeza/41/121/a

Vídeos: TV UNESPhttps://youtu.be/-Nrr1kn-zWI

TV UNESP Programa Artefatohttps://www.youtube.com/watch?v=OtwnqFchqmY&t=8s

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1 Comentário

  1. Nelson 16/11/2017 Responder

    Leandra, nunca esmoreça e continuei sempre questionando e demonstrando aos mais jovens que se espelham em você que tudo é possível alcançar basta lutar e acreditar !

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