Ela só quer, só pensa em namorar…

30/10/2017 Deficiência Mental, João Eduardo, Notícias 0
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Quando você encontra adolescentes e jovens adultos reunidos em busca de diversão é fácil perceber a tensão no ar. Hormônios a mil, o comportamento esperado é de atrações diversas, experimentos, novas descobertas. A situação é corriqueira para esse público, mas para pessoas com deficiência intelectual, como a síndrome de Down, nem sempre ela ocorre com freqüência.

Importante recordar que estou dando seguimento a uma série de abordagens empíricas sob o ponto de vista de um pai de uma jovem com síndrome de Down, não posso me considerar um especialista em nenhum assunto específico. Hoje estou abordando a questão do relacionamento afetivo de pessoas com SD, na condição de observador atento do tema. Desde já peço perdão por algum deslize.

A realidade que venho encontrando em famílias de jovens e adultos com SD é de restrição aos direitos dessas pessoas a manterem relacionamentos. A argumentação baseada na lógica é que pessoas com deficiência intelectual não conseguiriam autonomia suficiente para assumir as exigências da manutenção de um núcleo familiar. Assim, se não podem manter família, por que precisariam namorar ou se casar? Parece lógico para você?

Sim, parece lógico. Mas não deixa de ser uma visão restrita da situação. O ser humano é maior do que essa visão limitadora que avalia apenas a capacidade de montar um lar. Criar laços afetivos é um caminho seguro para a melhoria da qualidade de vida das PCD. Qual seria então a maior resistência para que esses relacionamentos aconteçam?

Pais e responsáveis normalmente são os que criam os maiores entraves para que os indivíduos com SD possam criar relacionamentos afetivos saudáveis: paquerar, namorar, casar, separar, viver com intensidade todas as diferentes etapas vividas por quaisquer outras pessoas. O medo de que eles sofram costuma ser o principal argumento para tolher essas possibilidades.

Eu não usaria o termo “superproteção”, ele até pode se aplicar em alguns casos específicos. Mas eu percebo que muitas vezes é apenas cautela mesmo. Mas precisamos lembrar que a explosão de hormônios acontece em todos os seres humanos por ocasião da puberdade, e meninos e meninas sentem seus efeitos. Mas nós, os pais, não sabemos muito bem como lidar com o assunto. Se já é difícil falar de sexualidade com os filhos, imagine se os filhos são deficientes intelectuais. Parece uma tarefa complicada, não é mesmo?

Sim, é complicada mesmo. Mas precisa ser enfrentada e bem atravessada, como todas as outras fases da vida de um ser humano. Os pais precisam aliar suas convicções sociais e lidar abertamente com a sexualidade de seus filhos com SD, investindo em sua autonomia, responsabilidade e individualidade nas suas escolhas. Enfim, como qualquer outro indivíduo, precisam se relacionar, apaixonar, quebrar a cara, começar de novo, vivenciar todas as etapas de relacionamento que os outros indivíduos. Isso é inclusão social. Mas não é fácil, concordo.

São inúmeros os preconceitos e lendas sobre a sexualidade das pessoas com SD. Eu resisto a concordar com algumas generalizações sem base científica, como por exemplo a afirmação de que a sexualidade nos indivíduos com SD é mais acentuada que em outras pessoas. Na minha visão, a questão neste caso está no processo de aprendizagem dos comportamentos sociais, que no indivíduo com deficiência intelectual, como a síndrome de Down, é mais lento do que em outras parcelas da população. De forma simplista, as pessoas com SD aprendem mais lentamente, precisam de um maior número de repetições para assimilar alguns conceitos.

E isso acontece também no aprendizado das travas sociais, das regras de comportamento em locais públicos, por exemplo. Um jovem acostumado a freqüentar locais públicos na companhia de sua família e de amigos aprende rapidamente as regras de convivência social na observação dos que estão ao seu redor. Para um jovem com deficiência que fica isolado em casa ou em uma instituição, sem ter a oportunidade de freqüentar um shopping ou uma praia no domingo, este aprendizado é muito mais lento…

Mais uma vez pedindo licença para expor uma visão sem embasamento científico, entendo que os jovens com SD passam pelos mesmos processos de explosão hormonal que outros jovens de sua idade, mas na maior parte dos casos não tem o amadurecimento intelectual para lidar com esses desejos e mudanças. E dificilmente encontram alguém preparado para lhes dar apoio nesse difícil momento.

Repetindo: se já é difícil falar sobre sexo com adolescentes, imagine então com um adolescente com deficiência intelectual…

Vou tentar me aprofundar um pouco mais neste tema na próxima coluna. Gostaria de lançar uma provocação, para refletirmos nos próximos quinze dias: como falar sobre masturbação para jovens com deficiência intelectual? Se já existe um constrangimento para lidar com o tema, imagine quando o público é diferenciado.

Tenho conversado com alguns profissionais sobre o relacionamento social de indivíduos com SD, e desde já agradeço a psicólogos como Gisele Gomide e Ricardo Pires, que me dão a honra de corrigir minhas reflexões sobre o tema. A conversa franca, aberta, e adequada ao nível de compreensão do interlocutor parece ser o melhor caminho.

Sim, em boa parte dos casos os indivíduos com SD poderão ser capazes de manter relacionamentos saudáveis e de viver plenamente sua sexualidade, e eu compartilharei com vocês na próxima coluna as divertidas experiências que os jovens cearenses têm vivido nas paqueras e namoros apoiados nas redes sociais e nos agitos que eles têm participado com apoio de seus pais. Dúvidas, comentários e sugestões são bem vindas. Grato pela atenção.

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