Afinal, pode casar ou não?

26/11/2017 Deficiência Mental, João Eduardo, Notícias 0
0 Flares 0 Flares ×

Hoje, vou compartilhar com vocês um pouco das angústias que nós, pais de pessoas com deficiência, enfrentamos quando o tema é o futuro de nossos filhos. A coluna de hoje vem com o objetivo de provocar algumas reflexões, para muitas das quais não tenho respostas.

Eu venho conversando sobre o relacionamento amoroso das pessoas com síndrome de Down, e acredito que consegui passar minha visão de que este é um passo importante para que o indivíduo possa viver com plenitude neste mundo. Partindo deste ponto, precisamos encarar os problemas práticos que de pronto aparecem. E se o namoro evoluir até um noivado ou uma intenção de casamento? Pode ou não?

O assunto é mais complexo do que aparenta. Envolve questões filosóficas, sociológicas e até religiosas… Isso sem falar nos aspectos legais e psicológicos! Podemos analisar essa questão sob diversos pontos de vista, é fascinante e assustador ao mesmo tempo. Para que as pessoas casam, não seria uma boa reflexão para começar?

Casam para ser felizes, para constituir uma família e compartilhar uma existência a dois, com possibilidade de agregar outras pessoas, filhos, etc. Existe uma fórmula para esse objetivo ser atingido? Não, claro que não! Não existe uma garantia, um caminho, uma trajetória que garanta o sucesso de um casamento. Mesmo sabendo que não existe garantia que dará certo, as pessoas insistem em enveredar por este caminho, sem ter certeza se estão prontas ou não para este passo.

Esta é a realidade de milhões de jovens sem deficiência que se casam todos os anos. Não existe uma garantia de que estão realmente preparados para o casamento, se aquele caminho é o melhor para suas vidas, etc. Mesmo assim, recebem o apoio da sociedade e da família. Para as pessoas com deficiência, em especial a SD, a situação é diferente…

Pais e responsáveis por indivíduos com SD normalmente acreditam que podem prever o futuro e já rejeitam a possibilidade de casamento para seus filhos. Não consideram que seus filhos teriam condições de viver as dificuldades de enfrentar um casamento e manter uma família.

Estariam eles com razão? Seria irresponsabilidade permitir esse sonho?

Quando os pais consideram que seu filho tem dificuldade para conseguir emprego, gosta de viver nas redes sociais o dia inteiro, não é muito atento às responsabilidades com a casa nem com o cuidado com o próprio corpo, como vão permitir que ele se aventure num casamento?

Atenção para a pegadinha: eu não estava falando, no parágrafo anterior, sobre filhos com deficiência! A preocupação vale para qualquer filho, mas ela parece um obstáculo intransponível para PCD; e é mais tolerada para os demais jovens.

Na verdade, todos nós precisamos de apoio na constituição de uma família. Conselhos de amigos e familiares, orientações sobre comportamento entre o casal, muitas vezes uma terapia, apoio financeiro dos mais diversos tipos. Desde os primórdios que existe o hábito de novos casais morarem sob o mesmo teto que os pais de um deles, essa realidade é mais comum do que se imagina. Parece-me lógico que esse apoio possa acontecer também para casais onde um ou ambos possuem alguma deficiência.

Existem muitos casos no mundo, frequentemente citados nas redes sociais, onde os dois trabalham e são responsáveis por seu sustento. A família está sempre por perto, afinal de contas: não é assim que acontece normalmente, mesmo com as pessoas sem deficiência?

Então um casal onde os dois possuem alguma deficiência pode constituir uma família e conseguir sua autonomia, nem que seja relativa? Claro que sim! Obviamente que precisamos lembrar que somos sete bilhões de pessoas neste planeta, e que cada situação é única. Parte importante dessa população não tem o desejo nem tem condições de encarar um compromisso tão relevante, assumir uma família.

Independente de apresentar ou não alguma deficiência, este não é um desafio para qualquer um. O que estou tentando argumentar é que os pais e responsáveis não deveriam proibir ou impedir o relacionamento de adultos com SD pelo simples fato de serem pessoas com deficiência.

O que eu acredito é que cada situação deve ser analisada sob o ponto de vista das reais capacidades de cada indivíduo. Quando os indivíduos com SD são estimulados desde a mais tenra idade a terem sua autonomia e buscarem seu papel no mundo, o esperado é que possam também aventurar-se na realização do sonho de constituir uma família. Essa esperança não deveria ser abatida a priori, a situação precisa ser analisada individualmente.

Se no caso de relacionamento entre pessoas com deficiência o preconceito da sociedade já dá sinais de que pode ser vencido, basta ver a quantidade de exemplos positivos em todo o mundo, o caso de relacionamento entre pessoas em condições diferentes é muito delicado. Uma pessoa com SD pode se relacionar com outra sem deficiência? Quais são os problemas decorrentes de um desnível intelectual entre os dois parceiros?

Na verdade existe desnível intelectual entre todos os casais existentes. Ninguém tem a mesma condição intelectual de seu parceiro, sempre um dos dois pode apresentar um desenvolvimento superior, ou pelo menos diferente. Mas existe uma resistência velada da sociedade em aceitar esses relacionamentos, e isso dá margem pra um monte de estórias interessantes.

Uma dessas estórias está entrando em cartaz em diversos cinemas do Brasil a partir de 30 de novembro. “Cromossomo 21” conta uma história de amor entre uma jovem com SD e um garoto sem a síndrome. O filme promete, vejam esse resumo:

“O longa retrata uma nova realidade sobre o amor através do olhar de uma jovem com Síndrome de Down, Vitória (interpretada por Adriele Pelentir), e do menino Afonso (interpretado por Luis Fernando Irgang), que não tem a síndrome. Ambos se apaixonam e decidem experimentar juntos as diferenças, enfrentando a interferência e o julgamento da família, buscando entender o real sentido do amor.” Veja mais aqui. Assista ao trailer do filme no final desse texto.

Bastou eu ler a leitura dessa resenha para me interessar pelo filme, espero que seja bem sucedido em sua exibição por aí. O diretor Alex Duarte acredita “… que o filme pode ajudar a quebrar preconceitos que as pessoas com síndrome de Down sofrem. Para ele, o preconceito só existe porque as pessoas o produzem.”

Falou e disse. E você, o que acha? Mande sua opinião, críticas e sugestões. Conversar sempre é bom.

 

Compartilhe:

Sem nenhum comentário

Deixe o seu comentário!