O Natal dos excluídos

26/12/2017 Deficiência Intelectual, Histórias de vida, João Eduardo, Notícias 0
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Quantas pessoas com deficiência você conhece? Se você fizer uma pesquisa na sua lista de contatos do WhatsApp ou de amigos no Facebook, quantos nasceram com Síndrome de Down? Quantos apresentam alguma deficiência?

Eu venho falando há quase um ano nesta coluna sobre a invisibilidade das pessoas com SD na sociedade, em todos os âmbitos. Na escola, no mercado de trabalho, nos espaços de lazer e cultura. Continua sendo uma raridade encontrar pessoas com deficiência nos espaços públicos. Onde estão esses dois milhões de pessoas com deficiência que vivem no estado do Ceará?

Segundo dados do governo, a Rede Estadual de ensino contabilizou em 2017 a matrícula de 3.821 alunos com algum tipo de deficiência, como cegueira, baixa visão, surdez, deficiência auditiva, surdocegueira, deficiência física, deficiência intelectual, deficiência múltipla, autismo, transtorno global do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. Eu pessoalmente conferi a quantidade de PcD em escolas do ensino médio, em Fortaleza: você encontra um ou dois alunos, percentual inferior a 1%. Onde estamos errando?

Não vou falar nos avanços que tivemos nos últimos anos. Apesar de importantes, são pífios se considerarmos os resultados atuais. O percentual da população com algum tipo de deficiência, residente no estado do Ceará, é superior a 27%, segundo o IBGE. Mas, o número de PcD matriculadas na rede estadual de ensino, por exemplo, é ínfimo! Essas pessoas vivem segregadas, escondidas, excluídas do convívio social.

Então, é Natal! Troca de presentes, reflexões sobre a necessidade de um mundo mais solidário, gestos isolados de compaixão, doações, as pessoas ficam mais sensíveis esta época do ano. Peço licença aos meus leitores para fazer algumas provocações nessa véspera de Natal. O que você pessoalmente fez, em 2017, para promover a construção de um mundo para todos?

Vivemos numa sociedade individualista, onde somos bombardeados pela mídia diuturnamente com informações e entretenimentos que promovem a exclusão social. Mesmo que de maneira velada, o tema sequer é debatido de forma efetiva. E ninguém parece se importar realmente com isso.

Todos nós somos responsáveis pela exclusão social. Não adianta querer diminuir sua culpa baseando-se nos seus gestos de caridade, distribuindo cestas básicas, presenteando pessoas pobres nessa época ou mesmo fazendo trabalho voluntário. Você faz parte desta sociedade que maltrata, castiga, exclui os pobres, os negros, as PcDs. O cidadão médio, como eu e você, não percebe isso porque avaliamos nosso comportamento pela análise do que nossos vizinhos fazem. Se todos se comportam dessa maneira, e somos perdoados pelos padres e pastores, o que tem de errado?

Para entender o tamanho de nossa culpa, precisamos de um maior distanciamento. Somente olhando de longe, é possível entender a sandice que o brasileiro faz no trato de sua população excluída. Vamos olhar um pouco para o passado para fazer algumas comparações. Qual sua opinião sobre a elite francesa, antes da revolução que já completou mais de 200 anos?

É muito fácil condenar os burgueses que oprimiam o povo para garantir seus privilégios e enaltecer os heróis que lutaram contra esses gananciosos: são nossos heróis os líderes da revolução francesa, Tiradentes, Nelson Mandela, Gandhi e até alguns mais esdrúxulos, como a princesa Isabel, que teria “libertado” os escravos. É fácil condenar a sociedade escravocrata do passado, a História faz isso. Será que nossa sociedade é melhor do que a escravocrata de pouco mais de cem anos atrás? Vamos comparar.

Como os escravos eram bens de valor, precisavam ser cuidados para que não morressem. Recebiam alimentação, atenção médica básica, moradia. Em troca de sobrevivência. Com o tempo, esses cuidados começaram a onerar bastante o bolso de nossa oligarquia. Era caro, manter os escravos. A solução mais barata foi deixá-los à própria sorte e transformar a escravidão em contrato de trabalho, o que transformou escravos em trabalhadores descartáveis. Nada mais atual para o Brasil de 2017, onde direitos trabalhistas consolidados há mais de cinquenta anos estão se esfarelando…

Alguém tem dúvida de que essa situação é o motor principal de nossa violência e caos nas grandes cidades? Esse Apartheid social vem sendo registrado e confirmado em inúmeros estudos. Vou citar apenas um mais recente aqui. Essas informações incomodam, pois mostram nossa responsabilidade como cidadãos de um país injusto.

A História não perdoará os brasileiros do começo do século XXI. Seremos julgados como responsáveis e coniventes com um quadro de exclusão social perverso e desumano. Sim, você é responsável! Não me venha com desculpas de que faz sua parte, de que o mundo é assim mesmo, que você frequenta sua igreja, dá esmolas, paga em dia o salário de sua empregada doméstica. A culpa é sua! É nossa! É de todos os brasileiros.

Está no sistema e nós não queremos ver! Estive esta semana vendo as comemorações do Natal de Luz, na Praça do Ferreira, coração da cidade de Fortaleza. É bonito de se ver, as luzes, a decoração cara, as crianças simulando um coral nas janelas do antigo hotel. Brega e chique.

Enquanto isso, como me alertava uma amiga que mora em outro estado, a quantidade de moradores de rua aumentou. A cidade está bem cuidada nas áreas nobres, onde circulam os pagadores de impostos. Na periferia, miséria, esgoto a céu aberto, fome, desemprego, carência de tudo. Quem são os culpados?

Sociedades mais avançadas que a nossa já conseguiram melhorar esse quadro, mas nós insistimos em manter os privilégios de nossa elite com uma apatia que envergonha qualquer cidadão minimamente conscientizado. Esse Apartheid social atinge de forma mais cruel as pessoas com deficiência, já naturalmente excluídas do convívio com outros indivíduos.

Ainda são poucos os meus amigos com Síndrome de Down. Tenho me esforçado para ampliar esse círculo. Já tenho vários jovens e adultos com SD entre meus contatos do WhatsApp; alguns me ligam para bater papo, falar sobre seus namoros, combinar alguma programação para encontrar os amigos. Eu ainda sonho com um mundo onde isso possa acontecer numa escala mais ampliada, onde essa parcela superior a 25% da população possa aparecer na mesma proporção nas escolas, no mercado de trabalho, nos shoppings e ambientes públicos em geral. E nos seus contatos do WhatsApp.

Um sonho de Natal. Que pode ser construído com a participação de todos. Você já fez sua parte? Desculpe-me se fui muito duro na coluna de hoje, mas a hipocrisia de nossa sociedade vem me incomodando cada vez mais. Espero que ela sirva de combustível para as reflexões tão necessárias para a reconstrução de uma sociedade mais inclusiva. Uma sociedade sem barreiras. Feliz Natal para todos vocês!

NOTA DO EDITOR: O blogue pede desculpas aos nossos leitores e ao autor do texto pelo atraso de sua publicação. Ele chegou no dia correto, mas o corre-corre dos festejos natalinos nos impediu de publicar na data correta. Feliz Natal a todos.

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