Que o amor caiba em ti inteiro

16/01/2018 Direitos Humanos, Lana Nóbrega, Notícias 1
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No outro dia, eu estava numa fila de supermercado e passaram dois homens jovens de mãos dadas, orgulhosos de serem um lindo casal. Não fizeram nada além disso: passarem felizes de mãos dadas um com outro. Você, que estava na minha frente na fila, não se aguentou, virou para mim e disse: “Agora é assim: essa pouca vergonha em todo canto!”. Aí fui eu que não me aguentei, e te disse: “Todo canto mesmo: sou igual a eles”. E você olhou para mim dos pés à cabeça e ficou ao mesmo tempo chocado e com raiva. E passou o resto do tempo na fila balançando a cabeça negativamente em reprovação.

É que você tem noção do quão cansativo é que a gente tenha o tempo todo que ficar defendendo que a nossa existência não é errada! Não, o amor entre duas pessoas do mesmo sexo não é errado! Não, não é errado que a minha aparência seja feminina. Ou não é errado que eu seja mais masculina. Não é errado que meu cabelo seja curto. Não é errado que eu escolha roupas tidas como masculinas. Nem é errado que eu seja a mais feminina das criaturas. É que você, do alto dos seus julgamentos, talvez não tenha parado para pensar que errado talvez seja a forma como você vê o mundo. Que talvez errado seja a forma fixa e sólida como te ensinaram a ver as coisas.

Talvez tudo isso te assuste, eu sei. E talvez no fim o que você não queira é que teu Deus ou tua religião sejam insultados. Isso porque dentro de algum tipo de ensinamento que deram e dão, foi dito talvez que as coisas só podem ser de um jeito, não sei… Não sei. Não vou te julgar por isso. Não vou nem te acusar de estar errado porque no fim eu quero mesmo é te fazer um convite. Um convite para pensar junto comigo.

Quando eu me descobri lésbica eu ainda era muito, muito católica. Eu sei, o verbo está no passado. Mas vamos deixar este detalhe de lado por enquanto, tá? Um dia eu te falo mais sobre isso. O ponto é que quando eu me percebi lésbica, na hora eu pensei em Deus. Por um brevíssimo momento ali, eu pensei: “Putz, e agora? Deus vai ficar arrasado comigo!” Mas isso foi muito, muito breve mesmo! Porque logo em seguida eu lembrei de tudo o que eu tinha já lido e pensado sobre Deus, sabe? Em todos os momentos de oração que eu já tinha experienciado em minha vida de imersão na liturgia e nos grupos de oração. Deus pulsava em mim como a certeza plena do amor maior. E o amor, AMA. Não há outra função ou caminho para o amor: ele simplesmente ama.

Logo, as pazes com Deus eu fiz rapidinho! A certeza do Seu amor e, depois mais racionalmente à época, a outra certeza cristã: fui concebida por Ele. Dentro da lógica cristã ensinada, tudo o que me compõe ali está por uma razão, e é fruto de um amor divino. De um raciocínio superior de que eu dou conta das características que me formam a tal ponto de fazer delas minha ferramenta de vida e meu canal de percepção, interação e mensagem com o mundo.

Percebe o que estou dizendo? Os elementos que me compõem, que formam a minha identidade, são exatamente o que deveriam ser! Por escolha divina, inclusive!

Eu não quero julgar a tua interpretação dos fatos, eu juro! Eu só quero mesmo é te convidar a outras leituras desses mesmos fatos. Eu só quero é te convidar a um caminho mais amplo de amor e de acolhimento do outro.

Porque nós estamos aí, entende? Às vezes é a tua médica, às vezes o teu mecânico, às vezes o teu contador, às vezes o flanelinha, às vezes a juíza que julga o teu processo, às vezes apenas alguém que está na fila na tua frente. E é muito triste que você julgue outra pessoa de errada sem nem a conhecer, cara! Você já pensou na soberba desse ato?

É muito triste que você olhe para duas pessoas que estão DE MÃOS DADAS – a representação mais forte da união e amor de dois seres humanos – e simplesmente enxergue isso com feiura e ódio. Cara, é em você que está essa feiura e esse ódio! Por quê? Para que escolher esse ponto de interpretação tão feio e tão sem amor?

Eu não sei. É bem cansativo mesmo que nós que somos tidos como diferentes do padrão (mil aspas cabem aqui) tenhamos que ficar nos defendendo de ataques o tempo todo. Mas quer saber? Acho que no fim esse é mesmo o papel do amor: tentar mudar o feio do mundo.

Sigamos então, camarada! E que um dia a gente possa estar também de mãos dadas, lutando pelo direito de sentir amor e não pelo direito de sentir ódio.

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1 Comentário

  1. Leandra Migotto Certeza 10/07/2018 Responder

    Lana… muito emocionante, menina!!! Tô inundada de amor!!!!!!! Sou grata a você pelas sábias palavras!!!!!! Continue firme!!!!!!!

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