Quando ir ao banheiro é uma aventura

09/02/2018 Deficiência Física, Depoimentos, Direitos Humanos, Notícias, Victor Vasconcelos 4
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Véspera de carnaval, folia, festas, namoros, paixões, bebês sendo feitos, álcool, muito álcool, banheiro. Para quem gosta de uma loirinha bem gelada, como este humilde escriba, banheiro acaba se tornando um companheiro inseparável e indispensável. Porém, nem sempre acessível. Na última quarta-feira, vocês leram um excelente texto da companheira Leandra Migotto Certeza (aqui), abordando o carnaval que é para os cadeirantes fazerem um mísero xixi. Isso mesmo. Não querendo dividir a sociedade entre alas de cadeirantes e não cadeirantes, é imperativo dizer que, nem sempre, a comissão de frente entende as agruras da bateria ou das baianas, mesmo que façam parte da mesma agremiação. Em outras palavras menos mominas, nem todo mundo sabe as dificuldades que as pessoas com deficiência enfrentam com coisas simples como ir ao banheiro, mesmo que sejamos todos seres humanos. Uma pessoa normal (eu odeio essa palavra, com todas as minhas parcas forças), ao sentir as urgências da natureza, simplesmente, se levanta, pede licença (os educados, logicamente) e vai à casinha. Se são mulheres, se sentam no aparelho sanitário e se aliviam; se são homens, o fazem em pé mesmo. E os cadeirantes? Aí, começa o desfile.

A primeira coisa que é necessária ser dita é que existem normas muito claras, estabelecendo as medidas exatas para a construção de um banheiro. Essas normas são a NBR 9050/2015, da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas – aqui). Ali, você vai encontrar a largura mínima obrigatória para a porta do banheiro (baseada na largura das rodas traseiras de uma cadeira de rodas, em torno de 80cm), a distância entre a porta e o sanitário, as medidas de largura para o transitar da cadeira dentro do banheiro, a porta da cabine, a distância entre a porta e o sanitário para que a porta possa ser fechada, a posição das barras de segurança, altura da pia, do papel sanitário blá blá blá. A Norma Técnica de Acessibilidade (NBR 9050) teve sua primeira edição publicada em 1994. Dez anos depois, em 2004, recebeu uma atualização, surgindo sua segunda edição. Finalmente, em 11 de setembro de 2015, a então presidenta Dilma Rousseff (saudações, presidenta) assinou a terceira edição da Norma, a NBR 9050/2015, em vigência atualmente. A Norma foi elaborada no Comitê Brasileiro de Acessibilidade (ABNT/CB-040), pela Comissão de Estudo de Acessibilidade em Edificações (CE-040:000.001). O projeto percorreu o Brasil de agosto a outubro de 2012, resultando no projeto final.

Todos os cadeirantes têm inúmeras histórias para contar de situações difíceis e constrangedoras em relação a banheiros. No meu caso, em particular, são muitas. Algumas são risíveis de ridículas e bizarras, como o que aconteceu no Shopping Iguatemi certa vez, que fez uma reforma e diminuiu a largura da porta. Minha cadeira ficou “entalada” e não consegui chegar ao vaso sanitário. Em outra ocasião, no Shopping Aldeota, fui ao banheiro privativo, com aquela plaquinha azul na porta, e, ao entrar, a surpresa: o gênio indomável que projetou o banheiro colocou um batente. Isso mesmo, você projeta um banheiro “acessível”, obedecendo às normas da ABNT, com tudo que se possa imaginar, e coloca um batente na entrada. Gostaria muito de conhecer essa figura, colocá-lo em uma cadeira e mandá-lo entrar no banheiro. Não diria nada, só esperaria se ele notaria algo estranho. O pior é que talvez nem note. Um terceiro exemplo que quero compartilhar ocorreu na Forneria Coriolano. Não havia batente nem a porta era estreita, mas o espaço dentro do banheiro era minúsculo. Meu cuidador precisou entrar primeiro, abrir a porta da cabine e segurar ambas as portas, do banheiro e da cabine, para que eu entrasse, pois se ele soltasse uma delas, a cadeira não passava. Para sair, foi o mesmo processo.

Tudo isso escrito no parágrafo anterior pode ser acrescido de mais. Nos meus tempos de faculdade, segunda metade dos anos anos 90, eu costumava sair muito à noite para bares e restaurantes. Se nos shoppings de classe média/alta da Aldeota, enfrentei as dificuldades relatadas, imaginem vocês em botecos da periferia. Foram experiências terríveis. Em muitas ocasiões, vim embora mais cedo. Adotei certos hábitos, como beber menos ou carregar sempre algum objeto que me facilitasse a vida quando a cadeira não pudesse passar pela porta do banheiro. Não são soluções bonitas, naturalmente, nem interessantes de contar, mas salvaram minha vida dezenas de vezes. Nós, pessoas com deficiência, somos obrigados por uma cidade despreparada para nos receber a sermos criativos e, por que não dizer, desavergonhados. Com a maturidade, o segundo se torna mais fácil, mas ainda é bem desafiador. Costumo dizer que, por essas razões, agradeço o fato de ter nascido homem. As dificuldades das mulheres cadeirantes são as mesmas, porém multiplicadas por três, quatro. Se não acreditam, volto a sugerir a leitura do texto de Leandra.

Nossas dificuldades não se limitam ao físico ou à locomoção. Claro que a pouca mobilidade é um fator extremamente sério, mas a falta de compreensão das pessoas e do interesse em pensar fora da caixinha tradicional, ou seja, que os consumidores não serão somente pessoas andantes e em boa forma física. Refiro-me aqui à invisibilidade das pessoas com deficiência (leia aqui). É uma invisibilidade conceitual. Em outras palavras, nós somos vistos, mas não somos enxergados. As pessoas sabem que precisamos de condições especiais, mas não sabem quais são elas nem se interessam em se informar. Não existimos como público, como agrupamento social ou como cidadãos. A filósofa Márcia Tiburi trafegou nas cercanias desse assunto ao se referir ao período da escravidão. Segundo ela, os escravos eram chamados, simplesmente, de negros. Não tinham nomes, não tinham sexo, não tinham origem. Eram, simplesmente, OS NEGROS. Conosco, somos os DEFICIENTES, os ALEIJADOS, os COITADINHOS, os ESPECIAIS. Quem somos, de onde viemos, o que queremos se tornam irrelevantes. Uma amiga, design de interiores, me contou, certa feita, que projetava uma sorveteria e chamou a atenção do proprietário para o banheiro diminuto. O proprietário disse que se preocuparia com isso se recebesse alguma reclamação, pois custaria muito caro fazer aquela reforma sem saber para quem. Durma-se com esse barulho. Vamos abrir nossas cervas, assar nossos churrasquinhos e brincar o carnaval. Ao menos até a quarta-feira de cinzas.

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4 Comentários

  1. Célia Regina Vieira Bastos 09/02/2018 Responder

    Victor eu talvez por ser mulher, por ter tido uma vida bem
    Ativa( acho agora idade avançada e limites último acidente um pouco mais parada), teria escrever um
    Compêndio dessas idas a banheiros “Inacessíveis “. Sem
    Contar os 25 anos lecionei na UFC( muito reivindiquei banheiro adaptado aposentei sem ter conseguido), por muito tempo andei bengalas, canadense e hoje cadeira de rodas. E desanima mesmo ! Recentemente clínica médica me dirigi banheiro porta parecia entrar cadeira de rodas. Ao entrar tive sair da cadeira, segurar mínima barra,acompanhante tirar cadeira para fechar porta.Terrivel espaço minúsculo entrei Consultorio estava cardíaca.Também recentemente Iguatemi shopping me dirigi banheiro desadaptado, sem porta, culparam logo um deficiente usando motorizada do shopping quebrou porta. Acompanhada minha fisioterapeuta ( foi confraternização Natal deficientes pacientes da fisioterapeuta), ela a meu pedido ficou frente porta para ter privacidade e acompanhante a me ajudar, minúsculo banheiro, eu pendurada barra era não dava espaço entre sanitário e parede. Conclusão tirei ainda fico pé dou passadas apesar pesares. E acento sanitário aberto frente risco prender minha perna me apavora ( já vi muitas reclamações desse tipo assento por muitos deficientes). Agradeça Deus como me falou ontem ter nascido homem porque é desafio entrar banheiros ditos Acessíveis.

    • Victor Vasconcelos 09/02/2018 Responder

      Meu relato, Célia, foi parcial porque também precisaria de vários textos. Na faculdade, metade dela, foi com banheiro comum. Somente na reta final, construíram um acessível, com rampa e tals. Agora, realmente, reconheço que as dificuldades das mulheres são muito maiores.

  2. Lina Bastos 10/02/2018 Responder

    Banheiro sujo, piso molhado para quem anda com muletas e é bem pequena (1,10) complica também.

  3. Lilian Tadday 10/02/2018 Responder

    Amei a reportagem da dificuldades de se chegar ao banheiro…Algo que parece tão simples mas uma verdadeira aventura!!! Meu filho tem Oi tipo 4 e por inúmeras vezes nessecita fazer o uso da cadeira de rodas…Sonho com o dia em que a sociedade tenha um olhar a todas as demandas colocando se no lugar do outro!

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