Coisas para se saber em dias de conscientização sobre o Autismo

25/03/2018 Autismo, Deficiência Intelectual, Depoimentos, Histórias de vida, Notícias 8
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Eis que se aproxima mais um 2 de abril, data em que é celebrado o Dia Mundial de Consciência sobre o Autismo, um período de grande atividade para quem faz parte desse movimento tão auspicioso e cheio de energia, quer seja nos atos públicos, caminhadas, audiências, na mídia ou nas redes sociais.

É uma época importante onde se eleva a consciência sobre a necessidade de mais inclusão, mais reconhecimento de direitos para pessoas autistas e suas famílias. Infelizmente, também é um período onde o preconceito e concepções equivocadas são passadas adiante, à reboque, nesse lastro de promoção da consciência sobre o autismo.

Nem todo mundo é obrigado a saber tudo e, às vezes, se dá de cara com entrevistas e publicações com termos e concepções já superadas: “pessoas com o problema”, “informações sobre a doença” ou “as pessoas que sofrem… estão sem atendimento”.

O uso adequado de uma linguagem mais inclusiva não é mera questão de aderir ao politicamente correto, é, sobretudo, a melhor forma de apresentar, acurada e respeitosamente, as informações pertinentes ao tema.

A mídia tradicional (TVs, rádio, jornal) tem um papel importante nesse processo, levando em conta que, ao mesmo tempo, ela reflete e influencia o imaginário social sobre a temática. Nesse campo, as mídias sociais também ganham força, tanto para propagar ideias e informações mais acuradas quanto para viralizar fakes, charlatanices e discussões que, embora girem em torno do autismo, não levam a lugar nenhum.

Então, pensando nisso, aqui vão algumas dicas básicas, mas importantes, nesses dias mais intensos de conscientização, que podem servir de apoio para quem quiser falar, escrever ou publicar informações relevantes sobre autismo, sem cair em ciladas:

1. A data comemora o “Dia Mundial de Consciência sobre o Autismo”, com ideia de esclarecer questões sobre as pessoas autistas, suas particularidades e seus direitos, mobilizando a mídia, a classe política e a sociedade de uma maneira geral para o reconhecimento e aplicação desses direitos; Muita gente fala em “dia de conscientização do autismo”, mas isso não faria sentido porque o autismo é um conceito abstrato que fala de uma condição humana, não uma entidade racional que poderia ser conscientizada, portanto o correto é Dia Mundial de Consciência sobre o Autismo;

2. É preciso lembrar que as pessoas não são “portadoras de autismo”, porque o autismo não é um vírus, uma doença ou mesmo uma bolsa ou objeto que carregam, que podem deixar em casa, se quiserem, ou que pode ser arrancado delas através da cura;

3. As pessoas também não “sofrem de autismo” porque essa não é uma condição negativa em si, as pessoas autistas, em geral, sofrem por conta do preconceito, das barreiras sociais, pela falta dos apoios necessários para seu desenvolvimento, pela falta de serviços públicos inclusivos e falta de respeito por sua identidade;

4. Não é verdade que o autismo é mais frequente que a aids, diabetes e o câncer infantil juntos, como é comumente divulgado. Além de ser uma informação incorreta, segundo as estatísticas oficiais, isso passa a ideia que o autismo é uma condição tão ou mais grave quanto essas doenças, quando não há critério de comparação. O que ocorre é que tanto pessoas autistas quanto seus familiares estão sujeitos a essas doenças também, sendo que a barreira à prevenção e à atenção primária na saúde tornam autistas, inclusive, até mais suscetíveis a essas condições, como já mostraram estudos respaldados pela Organização Mundial de Saúde;

5. Transtorno do Espectro do Autismo é o termo técnico do DSM-V (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5.ª edição) para designar o autismo e suas características, é como os médicos e profissionais da saúde tratam a questão. As pessoas autistas preferem ser chamadas assim, pessoas autistas e, ao proceder dessa maneira, estar-se-á agindo de maneira mais respeitosa;

6. Ninguém gosta quando usam o termo “autismo” ou “autista” como xingamento ou para qualificar negativamente alguém ou alguma coisa, isso é ofensivo para autistas e suas famílias que lutam tanto para superar o estigma e os efeitos negativos que decorrem dele;

7. O autismo é uma deficiência porque as características pessoais da pessoa autista (dificuldades sensoriais, de relacionamento social e comportamentais) em interação com as barreiras físicas, atitudinais e comunicacionais impostas pela sociedade, impedem uma participação em igualdade de condições com as demais pessoas, exatamente como está definido na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência;

8. Não está havendo uma epidemia de autismo, o que foi mudando, ao longo do tempo, foram os critérios diagnósticos e o número de profissionais capazes de identificar e diagnosticar o Transtorno do Espectro do Autismo, segundo o estabelecido nos manuais diagnósticos, como o DSM-V;

9. Pessoas autistas não são anjos, nem devem ser retratadas como eternas crianças, fugir dos estereótipos e reconhecer questões relativas à idade e ao gênero é outra forma de mostrar e promover respeito.

Esses são alguns pontos para se levar em consideração nesses dias de intensa mobilização em prol de uma maior e mais inclusiva consciência sobre o autismo, quando políticos e a mídia demandam nossa atenção. Um cuidado mínimo para que não se perca a oportunidade de ampliar e melhorar, de fato, a percepção da sociedade repassando, implícita ou explicitamente, informações e conceitos que descaracterizam a pessoa autista como parte da diversidade humana e que como tal merecem ser reconhecidos.

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8 Comentários

  1. Célia Regina Vieira Bastos 25/03/2018 Responder

    Parabéns pela missão vc, Fátima Dourado toda equipe da Casa da Esperança se dedicam em conscientizar, melhorar qualidade de vida pessoas com
    Autismo! Fiquei muito feliz em conhecer esse espaço dando depoimento sobre minha vida a convite de Fátima Dourado alguns anos atrás. Abraços

    • ALEXANDRE MAPURUNGA 25/05/2018 Responder

      Obrigado querida Célia. Estamos juntos nessa luta.

  2. Rodrigo 26/03/2018 Responder

    Gostei muito da sua postagem, aprendo a cada dia sobre o assunto e oq é mais importante na minha singela opinião é a questão do respeito que deve ser primordial.
    Parabéns pelo seu posicionamento.

    • ALEXANDRE MAPURUNGA 25/05/2018 Responder

      Respeito antes de tudo a todas as formas de estar no mundo. Isso é fundamental! Um caloroso abraço.

  3. Marcia 26/03/2018 Responder

    Muito válida sua matéria, mas no meu ponto de vista não seria mais interessante usar o termo pessoas com Autismo? Quando vc usa o Autista, vc qualifica essa pessoa, e não uma característica dessa pessoa. Obrigada

    • ALEXANDRE MAPURUNGA 25/05/2018 Responder

      Oi Márcia, essa é uma discussão interessante. Mas as próprias pessoas autistas preferem ser chamadas assim e há um motivo bem razoável para isso. É que autismo/tea se refere ao fenômeno médico que especialistas explicam de diversas maneiras, baseados em teorias mais diferentes. Quando falamos pessoas autistas nos referimos aos indivíduos reais, com histórias de vida. A mesma coisa acontece com outras deficiências, por exemplo, a pessoas cegas preferem ser chamadas assim que de pessoas com cegueira, justamente por fazer notar uma característica comum, inerente a pessoa, não algo patológico. Mas esse debate é bem interessante.

  4. Verônica Maria Alves Cabral 29/03/2018 Responder

    ????????????????????????? Texto belo que me ajuda a entender cada vez mais sobre a Síndrome do Autismo ????

    • ALEXANDRE MAPURUNGA 25/05/2018 Responder

      Muito obrigado!

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