Foto horizontal, escura, de um homem de meia idade, vestindo um fraque preto, de lado, tocando piano. No alto, à direita, o sinal de hashtag e as palavras personalidadepcd

Maestro faz sucesso apesar de vários problemas físicos

28/03/2018 Deficiência Física, Histórias de vida, Notícias 0
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Foto em close da mão direita de um homem tocando piano, mostrando seus dedos com severas contrações

João Carlos Martins sofreu um problema neurológico, que afetou sua coordenação e controle dos dedos

Filho de um português, José, o pianista e flautista João Carlos Gandra da Silva Martins nasceu em São Paulo, em 25 de junho de 1940. Puxou ao pai a paixão por música e piano. José teve o dedo decepado numa prensa, ainda jovem, e viu abortado seu sonho de seguir carreira artística. Seus dois filhos, porém, o compensaram – o próprio João Carlos e João Eduardo Martins. Seu outro filho, Ives Gandra Martins, se tornou um dos maiores juristas brasileiros. João Carlos começou seus estudos ainda menino, no dia em que seu pai comprou um piano, com a professora Aida de Vuono. Aos oito anos, seu pai o inscreveu em um concurso para executar obras de Bach, vencendo-o. Começou a estudar no Liceu Pasteur e, com onze anos, já estudava piano por seis horas diárias. Teve, no Liceu, aula com o maior professor de piano da época — um russo radicado no Brasil, José Kliass, e venceu o concurso da Sociedade Brito de São Petersburgo.

Seus primeiros concertos trouxeram a atenção de toda a crítica musical mundial. Foi escolhido no Festival Casals, dentre inúmeros candidatos das três Américas para dar o Recital Prêmio em Washington. Aos vinte anos, estreou no Carnegie Hall [O Carnegie Hall é uma sala de espectáculos em Midtown Manhattan, na cidade de Nova Iorque, localizada no 881 da Sétima Avenida.], patrocinado por Eleanor Roosevelt. Tocou com as maiores orquestras norte-americanas e gravou a obra completa de Bach para piano. Foi ele quem inaugurou o Glenn Gould Memorial em Toronto. Apesar da carreira de enorme sucesso, João Carlos se viu vítima de uma série de acidentes, que acarretaram grandes problemas neurológicos. Em 1965, vivia em Nova Iorque quando foi convidado para integrar o time profissional da Portuguesa de Desportos (SP), em um jogo treino realizado no Central Park. Toda a felicidade por jogar pelo seu time de coração se transformou em desespero. Uma jogada isolada, um lance tido como normal, uma queda aparentemente boba, ocasionou uma perfuração na altura do cotovelo que atingiu o nervo ulnar.

Esse “pequeno acidente” provocou atrofia em três dedos de sua mão, impossibilitando-o de tocar seu amado piano por um ano inteiro. A recuperação foi longa e complicada, fazendo com que o maestro tocasse com dificuldade até os 30 anos. Mas, esse foi apenas um dos percalços que João Carlos teve que superar em toda sua vida. Voltou ao Brasil e tornou-se empresário de música e boxe por 7 anos, empresariando Eder Jofre, o “Galo de Ouro” por ter sido bicampeão mundial de boxe na categoria Peso Galo, fonte inspiradora de sua volta triunfal ao piano. Voltou aos palcos, com muita dificuldade e depois de longos períodos de fisioterapia, recebendo diversas criticas positivas e sendo aclamado pelo público. Entretanto, desenvolveu distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (Dort), que o fez sair do palco mais de uma vez, afastando-se novamente e começando sua fase de empresário ligado à política. Decidido a não abandonar a carreira musical, fez várias adaptações para continuar tocando. De 1979 a 1985, ele gravou dez primeiras gravações da obra de Bach, de vinte e uma, mesmo com todas as sequelas. Conseguiu recuperar o público e gravar praticamente toda a obra de Bach.

Foto horizontal de um maestro de meia idade, vestindo um fraque preto, gravata borboleta branca e com as mãos erguidas, conduzindo uma orquestra

João Carlos começou a reger orquestras após seus problemas o impossibilitarem de tocar piano

Os testes a sua perseverança não haviam acabado. Em 20 de maio de 1995, na cidade de Sófia, Bulgária, sofreu um assalto e foi golpeado na cabeça com uma barra de ferro, provocando uma sequela neurológica que comprometeu o membro superior direito. Teve que fazer trabalhos de reprogramação cerebral para conseguir movimentar a mão direita, voltando a tocar com as duas mãos. Entretanto, voltou a apresentar problemas no braço direito e também na fala, sendo submetido a um novo procedimento cirúrgico. Conseguiu assim gravar seu último álbum com as duas mãos. Em 2001, João Carlos grava o álbum Só para Mão Esquerda, escrito por Maurice Ravel para Paul Wittgenstein, pianista austríaco, que perdeu o membro direito na Primeira Guerra Mundial. A intenção era gravar oito álbuns apenas para a mão esquerda. Entretanto, com o correr dos anos, desenvolveu no membro superior saudável, o esquerdo, uma doença chamada Contratura de Dupuytren, que provocava, além da própria contratura, o espessamento da fáscia palmar. Fora submetido a mais um procedimento cirúrgico, que não impediu que perdesse os movimentos da mão esquerda, inviabilizando tocar piano. Novamente, teve que parar de tocar e, dessa vez, acreditou que seria para sempre. “Eu estava sem rumo, em 2003, já sabendo que não poderia mais tocar nem com a mão esquerda. Sonhei então, que estava tocando piano, com o [maestro] Eleazar de Carvalho, que me dizia: — vem para cá, que eu vou te ensinar a reger”, contou certa vez.

A dificuldade de coordenação dos dedos de João Carlos se tornou um grande desafio para exercer a regência. Incapaz de segurar as batutas ou virar as páginas das partituras, o maestro se viu obrigado a decorar, minunciosamente, nota por nota, as obras que regeria. Todas as músicas que rege precisam ser decoradas. Isso o faz memorizar uma média de 5 mil páginas de música por ano. Entretanto, começou a desenvolver distonia no membro superior esquerdo, produzindo movimentos involuntários, e o impedindo momentaneamente de reger. Em maio de 2004, esteve em Londres regendo a English Chamber Orchestra, uma das maiores orquestras de câmara do mundo, numa gravação dos seis Concertos Branndenburguenses de Johann Sebastian Bach e, já em dezembro, realizou a gravação das Quatro Suítes Orquestrais de Bach com a Bachiana Chamber Orchestra. Os dois primeiros CDs já foram lançados (lançamento internacional). Em fevereiro de 2004 o crítico inglês descreve na International Piano Magazine um episódio pitoresco que aconteceu na vida de João Carlos Martins, quando após um recital no Carnegie Hall, no final dos anos 60, recebeu uma recomendação de Salvador Dalí: “Diga a todos que você é o maior intérprete de Bach, algum dia vão acreditar. Faz muitos anos que digo ser o maior pintor do mundo e já há gente que acredita”. O crítico termina dizendo que João Carlos Martins não teve que esperar tanto tempo.

Em 2012, João Carlos Martins se submeteu a uma cirurgia no cérebro para a implantação de dois eletrodos, com um estimulador eletrônico no peito, para recuperar os movimentos da mão esquerda, atrofiada, já que estava com a distonia bem avançada, atingindo todo o braço e sem abrir a mão há 10 anos. Em 07 de setembro de 2016, executou o Hino Nacional Brasileiro durante a abertura dos Jogos Paralímpicos de Verão, no Rio de Janeiro, daquele ano. João teve sua biografia traduzida em dois documentários internacionais – o Die Martins Passion, documentário franco-alemão, vencedor de quatro festivais internacionais—FIPA d’Or 2004, Banff Rockie Award 2004; Centaur com o melhor documentário de longa-metragem, S. Petersburgo; Best Documentary Award, Pocono Mountains Film Festival, USA. O documentário franco-alemão sobre a sua vida – “Paixão segundo Martins” – já foi visto por mais de um milhão e meio de pessoas na Europa. Também já foi exibido em algumas oportunidades na TV aberta no Brasil, no caso a TV Cultura. O outro é o documentário belga Réverie, de 2006, com enfoque maior na carreira, em detrimento da vida pessoal, como em Die. A Rede Globo também o homenageou durante a exibição do último capítulo da novela Viver a Vida. Após cada capítulo, a emissora apresentava um pequeno depoimento de alguém com alguma história de superação. O do capítulo derradeiro foi dele. Abaixo, o vídeo do seu depoimento.

* Essa matéria foi uma compilação dos sites Wikipedia e IBC Coaching. A ideia surgiu do comentário da fisioterapeuta Camila Napoleão acerca da novela global. É a primeira matéria do selo #personalidadepcd, sobre personagens históricos que possuem alguma deficiência. Aguardem. Deixem nos comentários sugestões de pauta.

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