#pracegover: Foto de uma mulher negra, sorrindo, vestindo um casaco grosso lilás, em um escritório.

História de vida de Rosângela de Oliveira

04/07/2018 Deficiência Física, Depoimentos, Histórias de vida, Notícias 0
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Meu nome é Rosângela de Oliveira, tenho 45 anos e trabalho na Faders/SJDS (Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência e com Altas Habilidades no Rio Grande do Sul/Secretaria de Justiça e Desenvolvimento Social) há 6 anos. Vou contar um pouco da minha história. Nasci na cidade de Canoas onde vivo até hoje. Lá, vivi com minha mãe e cinco irmãos. Aos dois anos de idade, tive paralisia infantil e aqui começa uma história de muitos desafios. Minha mãe conta que foi muito difícil saber que eu estava com paralisia, visto que éramos muito humildes e, sozinha com seis crianças, seria muito difícil cuidar de mim. Porém, ela não desistiu e seguiu trabalhando e tentando dar o melhor para mim e meus irmãos.

Aos sete anos, minha mãe procurou uma escola que fica perto de casa, mas a resposta da diretora foi que não tinha como me receber na escola pela minha deficiência, pois poderia constranger a mim e aos meus colegas de aula. Então, minha mãe, tão humilde e de pouco conhecimento, pensava que esta diretora tinha razão. Quando minha mãe me deu a notícia de que não estudaria naquele ano, me senti muito triste, visto que meu irmão mais novo ia para a escola, enquanto eu ficava em casa brincando de boneca.

Por volta dos dez anos, uma professora se mudou para o lado da minha casa e ela tinha dois filhos, os quais brincavam comigo e meus irmãos. Ela me perguntou se eu ia à escola e eu lhe disse que não porque não tinha como ir à escola. A professora passou a me dar aulas particulares, quando aprendi a escrever meu nome, e, por um ano, aprendi muitas coisas com ela. Já escrevia e lia algumas coisas. Mais tarde, ela foi embora, mas me deixou alguns livros e eu continuei estudando sozinha e com meus irmãos.

Quando precisava ir ao médico, minha mãe me carregava no colo, andávamos de ônibus e tudo era feito sem ajuda de ninguém. Minha mãe me carregou no colo até meus 15 anos. Tive uma festa muito bonita de aniversário, não como toda menina sonha, mas contou com a presença de muitas pessoas queridas, com direito à Valsa e tudo.

 

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Uns meses depois, precisei fazer uma cirurgia nas pernas no Hospital Santa Casa, quando conheci a Irmã Terezinha e ela me informou sobre a FCD (Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes). Ela me aconselhou a participar dos encontros que a FCD realizava com jovens com deficiência. No começo, não aceitei a ideia, relutei até que recebi a visita de um rapaz com deficiência, o Tonico, que me disse que eu iria ao encontro, mesmo contra minha vontade, porque eu iria acabar gostando. Então, fui ao encontro na FCD e, chegando lá, me senti muito mal, pois tinham muitas pessoas com deficiência e isso me deixou deprimida. Mas, ao ouvi-los falar, comecei a perceber que havia pessoas com deficiências mais graves e contavam sobre passeios e noitadas das quais eu nunca havia experimentado. E passei então a ver que minha deficiência não me impediria de viver normalmente.

Passei a ir com mais freqüência aos encontros e o Tonico me aconselhou a estudar e foi junto comigo na escola Bento Gonçalves, em Canoas, onde me matriculei na alfabetização de jovens e adultos no turno da noite. A escola ficava há uns 2 km da minha casa. O Tonico me deu uma cadeira de rodas para que eu pudesse ir à escola e me tornar mais independente. Mesmo com a cadeira de rodas, minha mãe ia comigo todas as noites para a escola, me levando e buscando a pé. No primeiro dia de aula, eu achava que sofreria muito preconceito. Mas, não foi assim. Quando cheguei à escola, me deparei com uma escada e os alunos que estavam ali por perto me ajudaram a subi-la. Conheci os novos colegas e fiz muitos amigos, os quais me esperavam chegar todos os dias para me ajudar a subir a escada e assim poder acompanhar as aulas.

Eu estava muito feliz. Em nenhum momento, senti nenhum preconceito e nenhuma discriminação. Fui bem recebida pela escola, pelos professores e, principalmente, pelos meus colegas. Encantei-me pelos estudos, vi coisas que nunca tinha visto, aprendi mais do que poderia se ficasse só em casa. Nesta escola, estudei e terminei o Ensino Fundamental. Não retomei os estudos porque minha mãe já estava ficando com mais idade e eu a ajudava a cuidar da casa e dos meus irmãos menores. Mas, continuei a frequentar a FCD.

Alguns anos depois, um grupo dentro da FCD desejou fazer outras atividades que não fossem apenas encontros e conversas, mas algo mais articulado e com mais garantias de acesso ao trabalho. E juntamente com este grupo fundamos a ACADEF (Associação Canoense de Deficientes Físicos). Neste local, exerci minhas atividades, sendo esse meu primeiro emprego. Trabalhei por 18 anos. Grande parte de minha formação e experiência profissional foi na ACADEF.

Após um curto tempo, entrei na Faders/SJDS, onde tenho uma experiência bem diferente, em relação à anterior, pois trabalho com colegas sem deficiência em constante contato com a diversidade. No que diz respeito a minha vida pessoal, tenho também vivido outras etapas: casei, tive um casal de filhos e isso foi uma experiência que acreditava nunca poderia viver, mas, apesar de tudo, foi uma experiência gratificante.

Essa é a minha história de vida.

Colaboradores na edição deste material: Eliane Caldas, Maria Cristina Laguna, Joicineli Becker (Joice) e Marco Antônio Oliveira Santos.

* Texto retirado do Portal da Faders/SJDS (clique aqui)

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