#pracegover: Arte horizontal nas cores branco e dourado, em degradê, da esquerda para a direita. No alto, à direita, as palavras, em branco com sombra preta, VAMOS CONVERSAR SOBRE. Logo abaixo, em negro, DEFICIÊNCIA? No centro, à direita, a logomarca do site Sem Barreiras, um quadrado em preto e branco, com o símbolo do site ao centro e a faixa, na diagonal dizendo 5 ANOS. Ao lado do quadrado, as palavras SEM BARREIRAS. No canto inferior direito, as palavras, em negro: ÀS SEXTAS-FEIRAS. No canto inferior à esquerdo, a foto de um homem em uma cadeira de rodas, de óculos, segurando um microfone.

Vamos seguir em frente

06/07/2018 Deficiência Física, Depoimentos, Direitos Humanos, Notícias, Victor Vasconcelos 0
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No início deste texto, quero me desculpar com meus leitores pela periodicidade errática desse espaço. Manter uma coluna fixa não é fácil. Muitas vezes, falta assunto para ser abordado; outra vezes, falta disposição para sentar e escrever. Não é uma justificativa aceitável, sei disso, pois eu deveria ter tido essa consciência quando criei essa coluna e me preparado, psicologicamente e conteudisticamente, para mantê-la sempre ativa. Mais uma vez, peço sua compreensão. Enfim, nesta semana, estava pensando sobre o que eu escreveria e me deparei com esse texto do site SOMOS ESPECIAIS, aqui. Intitulado Mamãe, por que sou cadeirante?, ele aborda um diálogo de uma mãe, Alessandra, com seu filho Lucas, de sete anos. A mãe arruma o filho para dormir, escova seus dentes, veste seu pijama, passa a sonda e o deita na cama. Rezam e aí vem a pergunta do garoto.

– Mamãe, por que o Papai do Céu me fez nascer cadeirante?

Sabia que esse tipo de conversa surgiria mais cedo ou mais tarde e que a tendência é que seja com cada vez mais frequência. Então respondi, com o coração na mão, mas com toda sinceridade do mundo :

– Eu não sei, filho, mas acho que para você mostrar as pessoas que dá pra ser muito feliz, apesar das dificuldades.

E então meu pequeno grande homem, do alto de seus 7 anos de sabedoria, mais uma vez me surpreende:

– Mamãe, eu sou muito feliz. Porque tenho uma família maravilhosa!

Me da um beijo, vira de lado em sua caminha e dorme tranquilamente, me deixando com a sensação de que, apesar de errar muito, alguma coisa devo estar fazendo certa”.

Por que esse diálogo chamou minha atenção? Porque me lembrei de uma pergunta semelhante que eu costumava fazer a minha mãe na minha infância e adolescência, quando fraturava um braço ou uma perna. Eu questionava por que eu havia nascido com deficiência se nenhum dos meus outros quatro irmãos a tinham. Não me lembro da resposta de minha mãe, sequer se ela respondia alguma coisa, mas acredito que deva ter sido na linha do que dissera Alessandra. Não há resposta para esse tipo de questionamento e a honestidade é, sem dúvida, a melhor estratégia. Por que nascemos com uma deficiência? Por que nascemos com uma má formação de colágeno, no meu caso, que prejudica a formação do osso e o deixa fragilizado e quebradiço? A Ciência talvez, um dia, possa responder, o que ainda não aconteceu. Àqueles que acreditam nos “desígnios de Deus”, essa resposta jamais virá. O que Alessandra disse, de que ele nasceu cadeirante “para mostrar que é possível ser feliz apesar das dificuldades”, é correto, mas não deixa de provocar uma segunda pergunta: por que logo eu fui escolhido para ser exemplo de felicidade? Não haveria outra forma de fazê-lo?

Esse diálogo nunca teria fim. É o que acontece quando o tema central é algo subjetivo e baseado, unicamente, em crença ou achismo. “Eu acho que foi por isso”; “eu acho que a explicação é essa” e por aí vai. Não irei tomar mais tempo neste tópico. Prefiro escrever sobre a assertiva final do pequeno Lucas: “Mamãe, eu sou muito feliz. Porque tenho uma família maravilhosa”! Esse é o ponto central desse texto de hoje. É possível sim sermos felizes mesmo com várias limitações e indefinições. Quando jovem, eu queria ser jogador de futebol, lutar caratê (não me perguntem o motivo), correr, andar de moto e outras coisas. Naturalmente, nunca fiz nada disso. Brinquei muito de bola, nas minhas limitações, basquete, vôlei, pingue pongue, lutei de espadas, bang-bang, esconde-esconde. Sempre na minha cadeira de rodas, sempre obedecendo aos limites que ela me impunha. Algumas vezes, me acidentei. Quebrei o braço uma vez sendo goleiro (mas, não sofri o gol). Adaptei alguns dos meus sonhos a minha realidade e tirei o melhor delas. Lembro-me de um presente que ganhei, quando criança, de uma trave de futebol feita de madeira. Foi o máximo. Pena que ela veio numa época em que eu começava a não mais me sentar no chão e usufruí pouco. Não realizei meus sonhos na totalidade, mas fui uma criança e um adolescente feliz.

 

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O fator família sempre foi fundamental. João Eduardo, da coluna de Síndrome de Down, aqui, sempre fala da importância da família para uma criança com deficiência. Uma casa bem estruturada, uma família amorosa e receptiva, fazem maravilhas. Como vivemos em um país que respeita pouco as diferenças, precisamos ter uma base sólida para conseguirmos enfrentar e superar as barreiras que iremos encontrar da porta da nossa casa para fora. Esse conceito vale para todas as crianças, deficientes ou não, mas as primeiras precisam um pouco mais de saúde familiar, pois suas “armas” de defesa são mais limitadas. Crianças com deficiência intelectual demoram a entender seu entorno. Por anos e anos, fui parado na rua para me perguntar se eu sabia falar, qual era meu nome e até mesmo qual era o elemento neutro da multiplicação (podem rir, mas não duvidem, aconteceu). Também já quiseram me dar esmola no Shopping Center Um. Constrangedor, irritante e revoltante, mas sempre consegui lidar com essas situações. Não ir a locais por não oferecerem acessibilidade é outra barreira que preciso enfrentar com frequência. Também revoltante, mas também contornável. Agora, coloquem-se no lugar de um autista, um Down, que não têm a malícia necessária para entender por que alguém lhes pergunta se eles sabem falar. A orientação, o suporte e o amor da família e dos amigos são fundamentais.

No passado, se um Gênio da lâmpada aparecesse para mim e perguntasse meu desejo, eu diria, sem pestanejar: ANDAR! Hoje, minhas prioridades mudaram. Primeiro porque sei que não é possível e, segundo, porque aprendi a aceitar quem eu sou. Não me pergunto mais por que sou assim, simplesmente, aceito que sou e acabou. Como diz o ditado: “aceita que dói menos”. Foi um longo caminho, longo e espinhoso, mas não o percorri sozinho. Tive sempre minha família e meus amigos ao meu lado, empurrando minha cadeira, segurando minha mão, me incentivando, me encorajando, brigando comigo. Sim, é possível você não ambicionar deixar de ser deficiente. É possível você ter outras prioridades. Basta você aceitar quem você é e enxergar suas qualidades. Ser feliz é uma decisão que nós podemos tomar. A minha felicidade não é a mesma sua, que não é a mesma minha. Vamos em frente, respeitando quem está do nosso lado, na nossa frente ou atrás de nós. Vamos em frente de cabeça erguida. Em frente, sempre.

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