Foto horizontal de Vânia Cristina sentada em uma cadeira de rodas de frente para várias roupas de cores diversas

“Não imaginei que após ficar paraplégica eu seria tão feliz no sexo”

30/10/2018 Deficiência Física, Notícias 0

Há quatro anos, Vânia Cristina de Souza, 34, saía de um show quando foi baleada dentro do carro. O tiro atingiu sua coluna e causou lesão medular. Aos 30 anos, ela estava paraplégica. Além de ter que se readaptar a um novo estilo de vida, Vânia, que sempre valorizou sua vida sexual, teve que redescobrir o próprio corpo e o prazer. A seguir, ela conta como foi essa jornada:

“Eu estava saindo de um show com um ex-namorado e ele ofereceu carona até o meu carro. Tínhamos ido separados porque terminamos o namoro dois dias antes do evento. Mas, nos dávamos bem ainda. Foi nesse pequeno trajeto, do carro dele até o meu, que a minha vida mudou. Um rapaz passou atirando e nos atingiu. Três tiros pegaram nele e um pegou em mim.

Meu ex desmaiou na hora. Eu fiquei num estado de acordar e desmaiar por um tempo. Só que os três tiros que o atingiram foram de raspão e, quando ele conseguiu acordar, colocou o pé no acelerador e nos levou direto para o hospital. Não vi nem metade do caminho.

Cheguei no hospital e lembro de ter falado poucas coisas à enfermeira. Fui internada, meio sem entender o que estava acontecendo. E isso se manteve por alguns dias. Eu sentia muita dor, mas a minha ficha não tinha caído. Levou quatro dias para que eu compreendesse que aquela bala me causou uma lesão medular e eu estava paraplégica.

A volta para casa

Nos dois primeiros meses, eu tinha que ficar deitada de lado, por conta da lesão, e de duas em duas horas ser virada, para evitar escaras (feridas na pele). Meu ex-namorado, depois que sofremos o atentado juntos, quis reatar. E, nesse começo, cuidou de mim. Fazia os meus curativos, se revezava com a minha família para fazer a minha comida e me ajudar a tomar banho também.

No terceiro mês, fui para um centro de reabilitação, que me ajudou a aceitar a minha condição e me ensinou coisas importantes para que eu ganhasse independência: a me vestir sozinha, a passar sonda sozinha, a usar o vaso sanitário e a tomar banho. Nessa época, também aconteceu o que eu já imaginava que aconteceria, o namoro acabou novamente.

Sem ele comigo, eu fui morar com a minha mãe porque ainda não dava para ficar sozinha. Chorei muito na época por ter que abrir mão da minha liberdade, da minha privacidade. Foi uma época difícil. Depender de alguém me deixava muito frustrada.

Somado a isso, eu estava com autoestima abalada, não gostava da minha aparência. Entrei em depressão e, um ano depois do atentado, tentei suicídio tomando remédios. Na minha mente, eu precisava descansar. Só depois de buscar tratamento com psiquiatra e psicólogo entendi que precisava reagir.

A segunda “primeira vez”

Eu sempre gostei muito de sexo. Por isso, não demorei muito para ter a minha primeira relação após o acidente. Encontrei um antigo colega e começamos a sair. O início, porém, foi aterrorizante, porque eu não sentia nada do seio para baixo.

Íamos para o motel, ele me tocava e eu sentia vontade de sumir. Não conseguia enxergar como eu seria feliz no sexo de novo. Eu esperava sentir prazer exatamente como antes, o que, fatalmente, me decepcionava.

Mas ele, muito paciente, insistiu. E, aos poucos, fui percebendo que, conforme ele me tocava, o meu corpo sabia que estava sendo tocado. Quer dizer, ele reagia. A partir do terceiro encontro, eu percebi que, concentrada, poderia sentir alguma coisa.

Ajudava muito o fato de ele me deixar à vontade. Porque, por exemplo, eu não sinto quando preciso fazer xixi. Eu tenho de esvaziar a bexiga para que não vaze. Se ela está cheia, qualquer mexidinha, ainda mais na relação sexual, pode liberar o líquido que está ali retido. Então, antes de nos tocarmos, eu passava a sonda. E ele não deixava que eu me sentisse constrangida.

Na quarta vez que saímos, eu tive um orgasmo com penetração. Aquilo foi uma coisa de outro mundo para mim. Eu realmente senti. E a reação do pós-orgasmo é a mesma: cansaço gostoso, minha barriga e pernas tremendo. É o que eu disse, o meu corpo sentia.

Redescoberta do corpo e do prazer

A relação não durou mais do que cinco encontros – o cara desapareceu depois disso. Mas, foi suficiente para eu entender que, para ser feliz de novo no sexo, eu tinha que trabalhar a minha mente e me redescobrir. Logo após a lesão, os meus hormônios ficaram uma bagunça. Havia dias que eu acordava e queria escalar a parede do quarto, de tanta vontade de fazer sexo. Eu só pensava nisso. Chegava a pedir a Deus para me tirar essa vontade. Comecei a me tocar.

Com o tempo, para minha surpresa, as sensações de prazer se tornaram mais intensas do que quando eu não era cadeirante. Antes, quando não tinha a lesão medular, nem sempre eu estava por inteira nas relações. Quando você tem total sensibilidade, você até se dá o direito de não prestar tanta atenção naquilo, simplesmente começa. Mas, você não percebe se sente prazer quando alguém beija a sua mão ou quando passa a língua entre os seus dedos.

Foi libertador descobrir tudo isso. Não imaginei que poderia ser tão feliz no sexo. Eu era muito imediatista. Eu queria o prazer logo. Hoje, valorizo toques em lugares como ombro, mãos, braço e orelha. Eu presto atenção em tudo o que está acontecendo durante o sexo. Eu fecho os olhos e me concentro em sentir prazer. E o orgasmo se torna mais forte quando vem. Ele vem com um gosto de vitória”.

* Matéria de Letícia Rós, da Universa (clique aqui)
** Foto: Central das Notícias

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