Foto horizontal de três mulheres, uma ao lado da outra, em cadeiras de rodas, ensaiando movimentos de dança

Mulheres cadeirantes criam grupo de dança do ventre pelo empoderamento feminino

10/11/2018 Deficiência Física, Notícias 0
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Foto horizontal de sete mulheres vestindo roupas típicas da dança do ventre. Atrás, três estão em pé. Em primeiro plano, três estão em cadeiras de rodas e, no canto direito, uma outra está ajoelhada e com uma roupa preta de academia.

Dançarinas cadeirantes criam grupo de dança do ventre para inspirar outras mulheres com deficiência a entenderem sua sensualidade

Na garagem de uma casa do bairro Nova Lima em Campo Grande (MS), 3 mulheres estão reunidas para o ensaio de dança do ventre. Nos movimentos, a leveza característica, a delicadeza das mãos, mas a coreografia deste grupo é diferente: aqui, nenhuma dançarina moverá o ventre.

As 3 bailarinas neste ensaio são cadeirantes. Ao todo, o grupo “Dança do Ventre Sem Limites” tem 5 integrantes, todas com algum tipo de deficiência. Mirella Ballatore Tosta, uma das idealizadoras do projeto, conta que a ideia surgiu para falar de empoderamento à mulher com deficiência:

“A dança do ventre tem um estereótipo, a questão da sensualidade da mulher, de expor o corpo, que tem que ser bonito, e não é nada disso. A dança do ventre é a dança da alma. Apesar de estarmos em uma cadeira de rodas, a gente esquece isso quando está dançando, ali está nossa alma, livre”, relata.

“Queremos mostrar para a mulher com deficiência que ela pode, sim, fazer dança do ventre, ou qualquer outra dança que goste. Ela pode ser sensual, se arrumar, se maquiar, usar um figurino, ela pode ser o que ela quiser.”

A dona de casa Suzana Vieira, perdeu o movimento das pernas em um acidente há 10 anos. Ela foi atropelada por uma motocicleta. Para ela, que ao contrário das duas colegas, já andou, dançar traz sentimentos fortes: “Envolve autoestima, é uma emoção muito grande, uma realização”.

Suzana conta que, durante as apresentações, as reações são diversas, especialmente do público masculino. Para ela, os homens são provocados a entender a dança do ventre com uma “sensualidade diferente”, que vai muito além da imagem que a maioria relaciona com a arte.

“Tem o preconceito ali também. Nós muitas vezes notamos nas pessoas aquela expressão que parece dizer ‘O que elas pensam que estão fazendo aí, dançando de cadeira de rodas, será que elas acham que podem se comparar a uma mulher que dança mexendo o quadril?’, mas isso para mim não importa. Estou ali fazendo o melhor, se você aplaudir e agradecer, para mim já está bom.”

Foto quadrada de uma mulher em uma cadeira de rodas, sorrindo, com a mão direita no cabelo, realizando um movimento de dança

Mirella Ballatore dança para mostrar que as mulheres com deficiência podem desenvolver a atividade que desejarem

Ana Lucia Serpa é paratleta, e sempre gostou de dançar, mas nunca havia tentado essa modalidade: “Eu imaginava que era uma dança sensual, e me perguntava, como eu poderia dançar com esse ‘corpinho’? Mas aprendi que isso não faz diferença, a dança do ventre vem lá de dentro, é isso que você mostra para as pessoas.”

Para ela, as apresentações oferecem ao público uma mensagem mais profunda do que a dança além das limitações físicas: “Hoje quando nós nos apresentamos, não são simplesmente 3 cadeirantes que chegam para dançar. São 3 mulheres que ensaiam, que se arrumam, que pagam preço de roupa e que estão ali para oferecer alguma coisa para quem está assistindo”.

“A cadeira de rodas não prende, ela liberta. A cadeira traz a mobilidade a quem não anda. Nós mostramos que a mulher, mesmo sentando em uma cadeira de rodas, ela é sensual, ela tem relacionamentos. Nós apenas não andamos, mas sentimos como qualquer uma.

“A cadeira não nos limita. O que nos limita é um degrau”

Suzana conta que, nas apresentações, o grande problema do grupo ainda é a acessibilidade. Das vezes que apresentaram-se, poucas vezes foi em cima de um palco:

“Quase nunca conseguimos subir ao palco, eles não são adaptados. Na maioria das vezes nós temos que dançar embaixo, no chão. Quando os palcos têm rampa, e podemos dançar lá em cima, nos sentimos como princesas.”

Ana Lúcia declara que o que limita as dançarinas – e os deficientes físicos – não é a cadeira de rodas: “A cadeira não nos limita. O que nos limita é um degrau”.

No ensaio, assim que começa a coreografia, a mudança na expressão das bailarinas é visível. Mesmo sem o grupo completo, em uma apresentação apenas para a equipe do G1, o sorriso das dançarinas é contagiante. Veja o vídeo aqui:

Foto vertical de uma mulher em uma cadeira de rodas, com as mãos postas acima da cabeça, realizando um movimento de dança

Suzana Vieira perdeu o movimento das pernas há 10 anos e conta que dançar, hoje, traz uma emoção muito forte

“Não é fácil você se expor”

As dançarinas não pagam nada pelas aulas, os ensaios acontecem toda quarta-feira na casa das alunas, cada semana em uma, que além das 3 bailarinas que estavam no ensaio, tem outras 2 integrantes, Flávia Pieretti e Marília Oliveira.

Nesses encontros elas conversam, dividem seus desafios, fazem uma espécie de terapia de grupo. A professora, Lisa Lima, é voluntária. Ela é terapeuta ocupacional e monta as coreografias adaptando passos de acordo com as limitações de cada uma:

“Quando se fala em dança do ventre, as pessoas já pensam logo em quadril. Aqui, a cadeira delas é o quadril. A dança é um mosaico, tem braços, mãos, pescoço, expressão facial. É um desafio muito grande, porque a dança para elas envolve algo muito maior”, declara a professora.

Mirella, que é presidente da Associação para Mulheres com Deficiência de Campo Grande, conta que a ideia do projeto é fazer apresentações em bairros, locais em que mulheres com deficiência possam estar, muitas vezes sem saber que têm a chance de praticar a dança.

“Não é fácil você se arrumar, se maquiar, e se expor, mostrando a dança como ela é para nós, mas queremos provar que é possível. Todas as mulheres têm a sua beleza, nosso papel é ressaltar que a mulher deficiente também tem a sua, e pode dançar, se quiser. Ela pode tudo”, finaliza.

* Matéria de Jaqueline Naujorks e Ricardo Freitas, do portal G1 Mato Grosso do Sul (clique aqui)

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