Primeira-dama Michele Bolsonaro faz discurso em Libras na posse do presidente eleito Jair Bolsonaro, atrás dela, seu marido, no parlatório do Congresso Nacional, em Brasília.

Jair Bolsonaro acaba com a secretaria que cuida dos surdos

06/01/2019 Deficiência Auditiva, Educação Inclusiva, Notícias 0
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O texto a seguir do site Hypeness ganha uma dimensão bem maior quando nos lembramos do discurso em Libras da primeira-dama do Estado, Michele Bolsonaro, na posse do marido. O ato da senhora Bolsonaro foi visto por muitos com emoção e a certeza de que as pessoas com deficiência viveriam novos tempos a partir de agora. Vídeos de pessoas surdas chorando ao “escutar” o discurso dela e palavras como ‘sensibilidade’ e ‘compaixão’ foram vistos e lidos nas redes sociais. Tenhamos calma e prudência. Por mais importante que seja o discurso em Libras, algo inédito na história das posses de presidente do Brasil, ainda é muito cedo para cravarmos uma mudança significativa na realidade das pessoas com deficiência no país. O problema da inclusão é grave e está incrustado na formação do povo brasileiro, que jamais foi incentivado a ver o outro com olhos de igualdade. Ao contrário. Nós fomos criados para sermos individualistas e cuidarmos do que é nosso, dos nossos interesses. Mudar essa realidade requer uma mudança de cultura, de educação. É preciso tempo e paciência. Não é com um ato isolado que teremos essa mudança. Para piorar, o presidente Jair Bolsonaro, logo no dia seguinte, assinou embaixo a decisão do Ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, de acabar com a secretaria que cuida da educação dos surdos. Uma incoerência, concordam? Onde esse ato do ministro se encaixa no roteiro dos novos tempos do país, iniciado pela senhora Michele Bolsonaro? Ela tomou alguma atitude? Tentou evitar? Vale ressaltar que a presença da Libras nos discursos do presidente é uma atitude altamente elogiável, coisa que faz falta no dia-a-dia e fez falta nos debates televisivos e entrevistas dos candidatos. Porém, no final das contas, o discurso em Libras deve ser colocado na caixinha do marketing e não da inclusão e da compaixão. Michele Bolsonaro ajudou, isso sim, o marido, ao desviar a atenção da mídia e do país do discurso vazio e belicoso que ele faria logo depois, uma estratégia muito comum em política. Se ela quer mesmo ajudar os surdos, é bom fazer algo mais do que pronunciar algumas palavras em Libras. Muito mais.

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O discurso em Libras da primeira dama Michelle Bolsonaro foi um dos assuntos mais comentados da cerimônia de posse do presidente eleito.

“Gostaria de modo muito especial de dirigir-me à comunidade surda, às pessoas com deficiência e a todos aqueles que se sentem esquecidos: vocês serão valorizados e terão seus direitos respeitados. Tenho esse chamado no meu coração e desejo contribuir na promoção do ser humano”, discursou Michelle, ao lado de uma intérprete que lia o texto do pronunciamento.

No entanto, o ministro da Educação do novo governo, Ricardo Vélez Rodríguez, decretou a extinção da secretaria do Ministério da Educação responsável pela diversidade, inclusão social e pela educação de surdos. Ela vai dar lugar a subpasta das Modalidades Especializadas.

De acordo com a Folha de São Paulo, o movimento do novo governo visa eliminar temáticas de direitos humanos, étnico-raciais e a própria palavra diversidade. A alteração foi confirmada por Jair Bolsonaro (PSL) no Twitter. “O foco [agora é] oposto de governos anteriores, que propositalmente investiam na formação de mentes escravas das ideias de dominação socialista”, escreveu.

No lugar da Secretaria da Diversidade e Inclusão do MEC, Vélez criou uma nova secretaria voltada exclusivamente para a alfabetização. O comando será do proprietário de uma pequena escola de Londrina, indicado por Olavo de Carvalho. O astrólogo é considerado o guru do presidente. O desafio da alfabetização está nas mãos de Carlos Francisco de Paula Nadalim, crítico ferrenho do Paulo Freire e defensor da educação domiciliar.

A Secadi foi criada em 2004 com objetivo de incluir grupos historicamente excluídos da escolarização. As políticas da pasta consideravam questões raciais, étnicas, econômicas, origem, gênero, orientação, sexual, deficiências, entre outras.

O próprio presidente Jair Bolsonaro, durante a campanha, classificou como ‘coitadismo’ políticas criadas especificamente para grupos vulneráveis.

Embora o novo governo cite a existência de uma suposta doutrinação marxista, fato é que o Brasil, de acordo com levantamento do governo federal, tem mais da metade dos alunos do 3º ano do ensino fundamental com nível insuficiente em provas de leitura e matemática.

À Folha de São Paulo, o frei David Santos, da ONG Educafro, lamentou o que classificou como “afronta”.

“Enquanto militante de um mundo melhor, participante de uma igreja que definiu políticas públicas como tema da campanha da fraternidade de 2019, vejo essa atitude como uma afronta”.

* Matéria do site Hypeness

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