Casal de namorados em à beira de um precipício e, ao fundo, o oceano embaixo e as nuvens no céu. O homem está de costas sentado em uma cadeira de rodas e a mulher está em seu colo. Estão abraçados e olhando um para o outro. No canto superior direito, a logomarca do blog Sem Barreiras em vermelho e em marca d'água.

A mente é nosso maior órgão sexual

11/06/2019 Notícias 0
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Em um quarto de bebê, mulher em uma cadeira de rodas sorri enquanto dá a mamadeira para sua filha deitada em duas almofadas no colo dela. Ao lado, um berço e, atrás, a cômoda com bonecas e material de higiene.

A mulher com deficiência sonha e tem o direito de exercer a maternidade.

No primeiro Dia dos Namorados do blog Sem Barreiras, em 2012, iniciamos uma abordagem jornalística diferente do que é comumente realizado pela grande mídia: começamos a falar sobre sexualidade e relacionamentos de pessoas com deficiência. Como parte do objetivo do blog de desmistificar questões relacionadas a esse segmento social, a sexualidade é um tema extremamente propício de ser analisado e debatido. A pessoa com deficiência namora? Tem desejos sexuais? É capaz de manter um relacionamento? Pode se casar? Ter filhos? Ser feliz e fazer o(a) outro(a) feliz? O que prejudica/impede a pessoa com deficiência de possuir uma vida sexualmente ativa, namorar, se casar e constituir família? A partir desses questionamentos, buscamos contar histórias e depoimentos de especialistas para confirmar ou negar esses mitos. Sim, a conclusão a que chegamos é que eles não passam de mitos, desconhecimento, tabus. Muitas vezes, tendo origem dentro da própria casa, com os pais negando a seus filhos a experiência de conhecer outras pessoas e explorar os mistérios do amor, do tesão e de suas libidos, até por medo de eles serem explorados ou enganados por aproveitadores. O resultado é um jovem reprimido sexualmente e com o agravamento de sua condição. A falta de conhecimento não é só da família, mas também da escola. A inexistência de educação sexual é um fator preponderante para o surgimento e aprofundamento de emoções como vergonha da sua condição física ou emocional, medo e queda da autoestima.

A psicóloga Ana Cláudia Bortolozzi Maia, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), estudou a sexualidade de cadeirantes para concluir sua tese de pós-doutorado pela Faculdade de Ciências de Araraquara, aqui. Com o nome Inclusão e Sexualidade: análise de questões afetivas e sexuais em pessoas com deficiência física, a estudiosa percebeu inicialmente que aspectos do corpo “novo” e questões de dependência incomodavam mais os cadeirantes do que a deficiência em si. Foram entrevistadas doze pessoas com impossibilidade ou dificuldade de andar. Segundo o que ela apurou nas entrevistas, os homens se mostraram mais incomodados em ser chamados de ‘gordos’, por exemplo, do que ‘aleijados’ e que a dependência das mulheres era mais desconfortável do que eventuais problemas de ereção ou ejaculação. “São fatores que extrapolam o fazer sexo ou não fazer”, afirma a professora. Já entre as mulheres deficientes, a psicóloga afirma que a maior queixa se trata da sexualidade. Boa parte das entrevistadas reclamou de comportamentos que as infantilizam. Por fim, no caso dos adolescentes, um comportamento comum entre os familiares é achar que o deficiente não tem interesse por sexo, namoro e casamento. A questão aqui, mais uma vez, extrapola a deficiência em si. A pessoa com deficiência intelectual, por exemplo, enfrenta dificuldades de comunicação e, muitas vezes, de compreensão do que acontece com seu corpo. Assim, não tem condição de verbalizar o que sente e o que quer. Reprime seus desejos, nem sempre conscientemente, e sofre as consequências. “As pessoas pensam que os cadeirantes são assexuados, mas são homens e mulheres sentados que perderam movimentos, mas não a libido”, afirma a psicóloga Ana Cláudia Bortolozzi.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define sexualidade como “um aspecto central do ser humano ao longo da vida, incluindo sexo, identidades de gênero e papéis, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução”, ou seja, sexualidade não está, necessariamente, ligada aos órgãos sexuais e/ou à penetração. Sexualidade é um estado de espírito que envolve respeito, troca, aceitação e parceria. A OMS ainda define saúde sexual como sendo “um estado de bem-estar físico, emocional, mental e social relacionado com a sexualidade e não meramente a ausência de doença, disfunção ou enfermidade”. Os estudos são unânimes ao indicar que as pessoas que manifestam maior satisfação com a sua vida sexual (e relatam menos problemas e dificuldades sexuais) habitualmente apresentam melhores níveis de saúde física e de saúde mental. Esta associação positiva reforça a ideia da saúde sexual como um componente importante do próprio conceito de saúde global. O psicólogo e terapeuta sexual Paulo Tessarioli afirma que a mente é o nosso maior órgão sexual. Uma vida sexual ativa depende de uma mente que conceba a sexualidade como uma experiência positiva.

Ter algum tipo de deficiência, seja física, sensorial ou intelectual, não significa perder os instintos, muito menos sexuais. Deficiência não é sinônimo de impotência, é apenas uma forma de desenvolver novos métodos para sentir o prazer. Na matéria Programa aborda dificuldades no namoro de deficientes, publicada por Sem Barreiras em 13 de abril de 2012, aqui, Tessarioli ensina que “quanto mais nos distanciarmos da ideia de que sexualidade se restringe ao sexo com penetração, mais próximos chegamos à vida sexual feliz e satisfatória”. A psicóloga escolar Joyce Muller Corredor conta a história da relação entre um cadeirante, à época com 22 anos, e uma jovem de 18, com limitação intelectual. “Esse casal é um exemplo de que qualquer pessoa pode ter sua sexualidade vivenciada, independe de ser deficiente – e do tipo de deficiência”, afirmou. O psicólogo e especialista em sexualidade humana, Fabiano Puhlmann Di Girolamo, explica que apenas pessoas que possuem algum tipo de lesão na medula correm o risco de perder a sensibilidade. Mesmo assim, essas pessoas ainda possuem outros sistemas (simpático e parassimpático) que permitem algum tipo de sensação como o calor do corpo ou arrepios. Além disso, a mulher ainda é capaz de seduzir e ter filhos.

Alinne Morais e Mateus Solano, na novela Viver a Vida

Alinne Morais e Mateus Solano, na novela Viver a Vida

Em 2010, a Rede Globo levou ao ar a história de amor entre a ex-modelo Luciana, interpretada pela atriz Alinne Morais, e Miguel, vivido por Mateus Solano, na novela Viver a Vida, aqui. Luciana deixou a carreira de modelo após sofrer um acidente e ficar tetraplégica. A história do casal e a superação sexual dela motivaram o interesse em entender como se dá a vida sexual de lesionados medulares. A fisiatra Therezinha Rosane Chamlian conta que a possibilidade de ter relações sexuais e de gerar uma criança depende do nível e do tipo de lesão sofrida. Nos paraplégicos, a possibilidade é maior, pois há preservação do tronco, dos braços e do abdome. Já entre os tetraplégicos, o desafio é maior e depende da sincronia do casal em descobrir novas formas de atingir o prazer. “O homem cadeirante pode ter ereção e ejaculação. No paraplégico, há ereção de reflexo, ou seja, com efeito psicológico ou pela visão de uma foto. Pode também conseguir penetração e ejaculação. O que muda em relação aos não cadeirantes é que a ereção não dura muito”, afirma. A vida sexual da mulher paraplégica também é possível. A mulher lesionada pode gerar uma criança da mesma forma que uma mulher sem a deficiência e dar à luz sem grandes problemas. No entanto, os médicos pedem que seja realizado um pré-natal mais cuidadoso, pois os riscos de pressão alta e problemas vasculares aumentam. Passados estes pormenores, a relação com uma mulher lesionada pode ser prazerosa se o parceiro não lesionado for curioso o bastante para achar outros pontos, que não os genitais, pois estes tiveram sua sensibilidade perdida.

Biologicamente, portanto, a deficiência não é um impeditivo para o exercício da sexualidade. Não será como uma relação entre duas pessoas sem deficiência, em que a criatividade e a curiosidade irão determinar as posições, os locais e a frequência das relações. Essas obedecem ainda a um padrão burro e estúpido criado pela sociedade, de que o sexo, para ser prazeroso, precisa ser quase uma prova de ginástica ou esporte radical. No caso da pessoa com deficiência, isso não ocorre, existem limitantes. Limitantes, é bom ressaltar, não impedimentos. O sexo com uma pessoa com deficiência desafia aqueles padrões. Então, o que dificulta o namoro e o sexo posterior? Aqui, devemos analisar sob os dois ângulos possíveis – do(a) deficiente e do(a) parceiro(a) não deficiente. No primeiro caso, a baixa autoestima costuma ser um problema recorrente e complexo. Vivemos em uma sociedade em que o físico é um atestado para muitas coisas e isso não se aplica apenas a quem tem uma deficiência. Obesos e idosos, por exemplo, sofrem desse problema também. Quantas vezes vimos ou ouvimos críticas contra mulheres mais velhas ou fora de forma usando biquíni na praia? Os cabelos grisalhos ou as marcas do tempo nos homens são sinais de charme e elegância; na mulher, velhice, antigo, obsoleto. A pessoa com deficiência pode apresentar baixa estatura, deformidades nos membros, na coluna. Chamam a atenção por onde passam e causam comentários, muitas vezes, desagradáveis. Já pessoas com deficiência intelectual têm dificuldades em entender o entorno, sinais sociais e ainda costumam dizer o que pensam sem os freios exigidos pela boa convivência. No caso dos parceiros, têm-se os preconceitos comuns de achar que o deficiente é incapaz de se relacionar ou é assexuado, mas há também o medo, o desconhecimento e até mesmo a vergonha de apresentar aos amigos e à família um(a) deficiente como seu(ua) namorado(a). Relacionar-se com uma pessoa com deficiência exige do parceiro entender o mundo em que ela vive, as dificuldades que ela enfrenta e estar disposto a encará-las.

Alessandro Fernandes e Giordana, juntos desde 2007

Alessandro Fernandes e Giordana, juntos desde 2007

O administrador Alessandro Ribeiro Fernandes se acidentou em julho de 2006 quando a moto que dirigia foi atropelada por um trator dentro da Universidade de Viçosa, no interior de Minas, aqui. Ao cair de cabeça, o peso do corpo lesou a medula. Segundo ele, “dá para namorar, não perfeitamente, mas não tem muita diferença. As posições é que são limitadas, mas não precisa de medicação, funciona normal”. Opinião semelhante tem Tania de Melo Barbosa Speroni, casada com Milton José Speroni, que sofreu um acidente de carro a pouco mais de dez anos quando voltava da faculdade à noite por uma estrada. O carro capotou e Milton ficou tetraplégico. “É preciso desmistificar que lesado medular é assexuado. Claro que temos relações sexuais, isso faz parte do pacote casamento. Eu me satisfaço, ambos sentimos prazer. Não adaptamos nada para transar. Para uma relação sexual acontecer basta ter o desejo e isso nós temos. Claro que não podemos transar na pia da cozinha por uma questão de logística, o Milton tem quase 1,90m e eu, 1,70m”, conta. No excelente e-book Manual da Mulher com Deficiência, que pode ser adquirido aqui, uma das autoras afirma que “a visão preconceituosa manifesta-se como forma de extrema proteção, consequência desta infeliz mania de infantilizar quem tem algum tipo de limitação. Muitas vezes, ao se deparar com uma mulher com deficiência grávida, a primeira pergunta que se faz é: ‘Quem será que fez isso com ela’? Como se, por ter deficiência, a gravidez fosse necessariamente fruto de estupro ou de um ato tremendamente cafajeste que fizeram. Não se pensa que ela pode ter escolhido simplesmente transar como todo mundo faz! A sociedade teima em não relacionar sexo e deficiência, ora por ignorância, ora por manter a visão assistencialista, que as pessoas com deficiência desde sempre sofrem”. A autora vai além e afirma que o pior é “quando os mitos passam para a cabeça da mulher com deficiência”. Inseguranças e medos aparecem. “Muitas evitam relacionamentos afetivos e sexuais por acreditarem que não podem despertar o interesse verdadeiro de alguém. Assim, o medo de não serem desejadas torna-se o principal obstáculo para os relacionamentos amorosos e não a deficiência em si”.

Voltamos, então, ao tópico do ‘padrão’ da sociedade. Nele, as mulheres não foram feitas para sentir prazer na cama ou ter seus desejos atendidos. Segundo estudo de diferentes universidades americanas, as mulheres heterossexuais atingem o orgasmo somente em 65% das vezes em que fazem relação sexual, enquanto os homens heterossexuais chegam ao clímax em 95% das vezes. Mulheres lésbicas, por outro lado, atingem ao ápice sexual 86% das ocasiões. Como se vê, os mitos em torno da sexualidade de mulheres com deficiência podem ser encarados como uma extensão da sexualidade feminina em geral.

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