Uma mulher ao centro, com uma garotinha autista no colo, uma outra cega à esquerda e uma terceira, com Síndrome de Down, à direita. À frente, uma mesinha de brinquedo.

Relato de uma Mãe especial

13/07/2019 Deficiência Intelectual, Depoimentos, Histórias de vida, Notícias, Relações familiares 0
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Foto vertical de uma mulher ao centro, duas garotinhas - uma de cada lada - e um terceira deitada em uma almofada redonda à frente. Ao fundo, seis círculos na parede com flores em cada um deles.

Carla Penteado com suas três filhas – Rafaela, cega, Marcela, autista, e Luana, Síndrome de Down.

Tenho 3 filhas, Rafaela, Marcela e Luana.

Um dia fui dar uma festa para crianças no Nordeste. No final da festa fui conhecer o berçario, peguei criança por criança no colo porém, quando fui pegar a menina Marcela, a cuidadora disse que eu não precisava pegá-la porque ela não ouvia, não chorava e não sentia nada. Quando escutei a frase, não sente, isso me deixou muito mal, para mim foi uma afronta. Eu peguei a Marcela e cantei no ouvido dela, a Marcela chorou pela primeira vez, todos me olharam com espanto e começaram a falar que ela era minha filha. Eu comecei a ficar com pressa de ir embora e fiquei bem assustada.

Naquele mesmo dia à noite, eu estava jogando água na piscina e meu marido me perguntou se eu tinha perdido o sono, na hora eu comecei a chorar falando que eu tinha deixado minha filha no abrigo. No dia seguinte eu conheci o juiz e perguntei o que eu precisava para adotar. Dei entrada no meu processo 15 dias após.

As assistentes sociais não me olharam com bons olhos, porque ela tinha paralisia cerebral. Achavam que era um capricho meu, deste momento em diante comecei a ter todas as dificuldades possíveis para levar minha filha para casa.

Tinham 70 pessoas na fila da adoção, na minha frente, e ninguém queria a Marcela. Passaram 7 meses e o juiz me deu a adoção da Marcela.

Após isso me habilitei de novo para criança especial. Por um erro no cadastro, a comarca me habilitou para criança saudável, fiquei 4 anos esperando minha segunda filha especial e nada. Nesses 4 anos de espera fundei o ATE (Adoção Tardia e Especial). Comecei a aproximar casais que queriam crianças especiais, não tinha nada parecido no Brasil, fomos pioneiro em grupo de apoio e em busca ativa especial. Em 2019 fez 12 anos que o ATE existe.

Vivo brincando que fui uma das primeiras cegonhas do pais.

Após isso eu conheci uma menina na busca ativa e ela tinha paralisia cerebral, eu queria muito conhecê-la, mas queria levar minha filha Marcela, é importante que a Marcela goste da menina pois a Marcela é autista. Fiquei 2 horas na sala da assistente social tentando fazer Marcela olhar para menina. Não ouve um pingo de empatia entre as duas.

As assistentes resolveram me levar no berçario, eu só consegui ver um berço, na hora eu perguntei quem era a menina com down. Saí de lá querendo falar com o juiz, era minha segunda filha nascendo. Marcela minha filha autista me perguntou se eu ia comprar a Luana com down e naquele momento vi que ela gostou da luana, ai expliquei para minha filha que “não é comprar que fala e sim adotar”.


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A Luana não estava destituida, saí da comarca arrasada, foi uma luta para fazer o juiz aceitar essa adoção, tentei trazer Luana para o Natal e Ano Novo e sempre era negado o pedido. Enquanto isso eu montei o quarto da Luana, mesmo com o juiz dizendo que não me daria Luana em adoção.

Um dia me ligaram do abrigo avisando que a Luana estava com pneumonia, e eu fui buscar Luana como filha. Na época o ATE era no orkut e tinha uma foto da Luana, e uma tia da Luana viu a foto e veio atrás de mim. Conversamos e a tia viu que eu amava a Luana, pois essa tia da Luana me ajudou na destituição, uma vez que a mãe estava desaparecida. O processo da Luana foi lindo, porém dolorido, mas eu tinha muita fé.

Eu trouxe meu cadastro de adoção de São Paulo para Joinville, a assistente social passou por mim e disse que tinha um bebê para mim, a psicóloga passou por mim e disse que tinha um bebê para mim, cheguei na sala da assistente social querendo cegonhar e colocar a menina em família, o quadro era hemorragia intra crania grau 4, ela era surda, nunca ia sorrir nem sentar, e eu pedi para conhecer, quando eu vi a Rafaela eu não pensei em casal nenhum, eu sabia que aquela menina era minha filha. Cheguei em casa e meu marido veio me perguntar se eu tinha novidades e eu virei e disse que eu tinha uma novidade do tamanho do mundo, “eu achei nossa terceira filha”, ele ficou motivado e fomos conhecê-la no dia seguinte. A psicóloga do fórum disse que eu tinha 2 filhas especiais e queria me passar por um psiquiatra antes de adotar. Cheguei no consultório e além do médico me liberar para adoção me deu remédio para amamentar.

Comecei amamentar ela dentro da maternidade. Um doutor me viu amamentando a Rafaela e me perguntou porque eu iria adotar uma criança que só tinha 1 ano de expectativa de vida, naquele momento virei para ele e disse que ele podia entender tudo de Neuro, mas não entendia nada de Amor.

Como todas, o processo de adoção foi muito complicado, Rafaela fez mais de 10 cirurgias, e após 8 anos 1 mês e 3 dias a Rafa faleceu, ela é nosso anjo.

Sem minhas filhas o ATE não existiria.

Se você é mãe especial de criança especial eu sou a cegonha certa para você.

* Texto de Carla Penteado, do perfil Mãe Especial Com Orgulho, no facebook (clique aqui)

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