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O medo e o amadurecimento

27/11/2019 Deficiência Física, Destaques, Direitos Humanos, Histórias de vida, Notícias, Victor Vasconcelos 0
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O medo é um sentimento interessante. Mais do que isso, é poderoso e ardiloso. Poderoso porque é capaz de manipular nossas ações e pensamentos da maneira que desejar. Ardiloso porque ele faz suas maquinações nas sombras, escondido. Foi isso que aconteceu comigo nos últimos 30 anos e só agora estou percebendo. A fragilidade óssea, proveniente da minha deficiência, me fez desenvolver um verdadeiro pavor de acidentes, quedas e pancadas. Elas poderiam causar fraturas. E causaram, mais de cem vezes em quinze anos. Assim, criei um sistema de proteção para evitá-las. Este sistema consistia em evitar terrenos irregulares, descer batentes e rampas de frente e, mais recentemente, andar de táxi adaptado, os doblôs, se tornou um enorme desafio. Por fim, sair de casa passou a ser o maior desafio de todos.

No último dia 15 de novembro, fui invadido por uma onda de revelações e insights que me mostrou que o medo age em mim de forma muito mais intensa e abrangente. Voltei ao passado, exatamente 23 anos atrás, para reviver o momento em que me apaixonei pela primeira vez. Eu tinha 19 anos e a conheci no cursinho pré-vestibular. Estudávamos juntos e, certa vez, descobri que ela tinha namorado. As fantasias que havia criado de um possível relacionamento se desfizeram quase de imediato e, a partir daquele dia, a convivência com ela se tornou, praticamente, insuportável. Era ter a fonte de nossos desejos e alegria bem ao alcance da mão e, ao mesmo tempo, vê-la inalcançável. Jamais fiz qualquer movimento na direção de uma tentativa de conquistá-la, jamais revelei meus sentimentos, nem para ela e nem para ninguém mais. Convenci-me de que não teria chances e que manter a amizade era melhor do que arriscá-la em uma tentativa fútil de algo a mais. O mesmo processo se repetiu alguns anos depois. Ali, cunhei a frase: “se não posso me sobressair fisicamente, devo me sobressair intelectualmente”. Uma frase forte, profunda e de aparente sabedoria. Ênfase no ‘aparente’.


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Hoje, vejo que o medo manipulava minhas decisões. Eu jamais tentei conquistar a Luciana, não por motivos racionais ou meticulosamente pensados, e sim, porque tive medo. Pura e simplesmente. Medo da “disputa”, da rejeição e ainda do sucesso. Sim, descobri também que a possibilidade de sucesso me assusta e me trava. E é essa realidade sobre mim nos últimos 30 anos. Estive travado e paralisado, pessoal e profissionalmente, pelo medo, do fracasso e do sucesso. Busquei uma zona de conforto, onde o fracasso seria quase zero, e ali fiquei. Quem não arrisca fracassar também não sairá vencedor e a zona de conforto não me proporciona muitas chances de vitória. Profissionalmente, criei o Sem Barreiras em 2011 e, até hoje, eu o sinto estagnado. Ampliei meu alcance para as redes sociais, gravo vídeos e estou preparando um livro, mas as bases concretas continuam as mesmas, quais sejam: trabalho sozinho, no meu quarto e não há entrada de receita. Em outras palavras, comecei o site como um empreendimento pessoal e ele, assim, permanece. Aqui, o medo do sucesso também se digladia com o medo do fracasso. Temo, por exemplo, que o livro seja muito bem aceito e me motive a fazer outros. Da mesma forma, que o site cresça ao ponto de aumentar minha responsabilidade e eu deixe de tê-lo como um hobbie.

Interessante como é bom dizer EU TENHO MEDO. É como se um peso enorme saísse das minhas costas. É como se diversas perguntas, finalmente, fossem respondidas ao mesmo tempo. Mas, em compensação, outras surgem e a principal é: como superar esse medo? Meus autopreconceitos ainda vivem e as dúvidas sobre minha autoestima ainda me maltratam. Dúvidas como: será que serei capaz de atrair o interesse amoroso de alguém? Serei capaz de satisfazer esse alguém, sexualmente? Serei alvo de traições? Como me adaptarei à presença de uma pessoa estranha em minha vida, exercendo uma função tão importante e íntima? Todas essas perguntas se direcionam para um ponto fundamental: amadurecimento. No fundo, no fundo, meu maior medo é da vida, é de crescer. Namorar, casar, constituir família, criar um projeto profissional, fazê-lo crescer e assumir os bônus e os ônus dele fazem parte desse monstro chamado crescimento, amadurecimento. Hoje, eu entendo o que as pessoas querem dizer com a frase: “as dores do crescimento”. Estou sentindo essas dores pela primeira na vida.

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