Casal de costas, de mãos dadas, com seus rostos bem próximos, como se fossem se beijar na boca. À esquerda a pessoa está sentada em uma cadeira de rodas; à direita, sua parceira está em um banco. Ao fundo, o mar e o sol se pondo.

“Não é sacrifício”, dizem casais inclusivos

15/08/2020 Notícias 0
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Foto vertical de um casal de namorados. À esquerda, uma jovem transsexual, sentada em uma cadeira de rodas; à direita, um rapaz com o braço nos braços dela.

Leandrinha e Miguel se apaixonaram durante a quarentena.

A Pequena e o Grandão: é assim que Leandrinha Du Art, fotógrafa, comunicadora e militante, e o namorado Miguel Bevenuto, se referem carinhosamente um ao outro. Eles se conheceram durante a quarentena: ela curtiu uma sequência de fotos dele no Instagram e, de lá, o interesse evoluiu para uma troca infinita de mensagens. Apesar da distância (ambos vivem em Minas Gerais, ela na capital, Belo Horizonte, e ele no interior, em Paracatu), logo surgiu o desejo de um encontro presencial e a certeza de que estavam diante de uma relação promissora.

“Nosso primeiro encontro foi mega especial, porque já pedi o Grandão em namoro. Armei uma surpresa com ajuda dos nossos amigos e chamei ele para a responsabilidade”, ela brinca. O que a levou a tomar essa decisão? Uma mistura de atração física, intuição apurada e diálogos sinceros, que fizeram com que construísse uma intimidade com Miguel.

“Ele me vê de verdade: enxerga meu corpo com deficiência sem deslegitimá-lo, mas também como sendo o corpo de uma mulher sexy, gostosa, inteligente e inspiradora”, declara. Leandrinha, mulher transexual, tem uma síndrome rara chamada Larsen — e se hoje se enxerga de forma empoderada, no passado sofria com oscilações na autoestima. “Lá atrás, olhar para o meu corpo era uma questão muito grande. Foi através da descoberta da minha sexualidade que isso mudou”, relembra.

Apesar de recente, o relacionamento tem rendido aprendizados importantes para Miguel, um homem trans. Até conhecer Leandrinha, ele nunca tinha ouvido falar na palavra capacistismo, usada para denominar o preconceito sofrido por pessoas com deficiência.

“Aprendo constantemente ao lado dela. As questões do corpo são irrelevantes para mim. Já deveria ser natural o nosso entendimento sobre a diversidade de corpos. Vejo o quanto as pessoas lutam para ter uma imagem do padrão e admiram casais por causa disso, sem nem se questionar se aquele relacionamento é bom ou não”, ele diz.

#SomenteOAmorImporta

Leandrinha recorda que este é seu quarto relacionamento com um homem sem deficiência. Apesar disso, ela nunca havia falado sobre afeto de maneira aprofundada publicamente. Agora, inspirada pelo novo amor, decidiu usar as redes sociais para expor imagens de casais de pessoas com e sem deficiência, contando suas histórias e usando a hashtag #SomenteOAmorImporta. “A ideia é colocá-los no centro do debate e trazê-los para a normalidade, porque é dessa forma que esse tipo de amor tem que ser visto”, defende.

A seguir, três mulheres que participaram do projeto falam sobre suas perspectivas na relação:

“Não sou santa e minha vaga no céu não está garantida” – “Eu e o Leandro nos conhecemos por meio de um amigo em comum. Fui alertada: ‘Cuidado porque ele não presta, é sem vergonha’. Eu, debochada, disse que não pretendia casar mesmo. Mas acabou que nos apaixonamos: logo começamos a namorar e, menos de dois meses depois, paguei o comentário com a língua e me mudei para a casa dele.

Na época, estava morando com a minha avó, que não gostou da novidade. Algumas amigas também demonstraram preocupação, pois achavam que eu estava indo rápido demais. De fato: o Leandro sofre de um tumor na medula espinhal que fez com que perdesse a capacidade de caminhar aos 25 anos. Hoje, está com 33 e o tumor ainda existe e oferece riscos, pode piorar. Mas eu pensei: ‘Imagina se ele é o amor da minha vida? Se está é uma grande história, que eu não vou viver por medo?’. Então decidi que, dane-se, eu iria me jogar sem pensar no que poderia dar errado. Hoje minha família toda gosta dele.

Foto vertical de um homem sentado em uma cadeira de rodas e sua namorada sentada em seu colo. Ela tem os braços em volta dos ombros dele e ele tem os seus na cintura dela. Ela olha para o lado esquerdo da imagem e o homem está de olhos fechados.

Bianca e Leandro foram morar juntos menos de dois meses depois de começarem a namorar.

Já passei, no entanto, por inúmeras situações neste período que me fizeram sair do sério. Começando por todas as vezes em que me perguntam se sou sua cuidadora, enfermeira ou irmã. Quando digo que sou namorada, logo vem uma pausa dramática, uma mão no ombro e um ‘parabéns’, como se eu fosse um ser divino, uma santa, e meu lugar no céu estivesse garantido. Sem contar as vezes em que presumem que ele sofre de alguma deficiência mental e me perguntam: ‘Será que ele não quer uma água?’

Uma das situações que mais me marcou foi quando enviei uma mensagem para uma diretora de cinema a fim de concorrer a uma vaga de assistente e ela me respondeu alguns dias depois dizendo que cogitou a minha contratação, mas que desistiu em função do Leandro, pois achava que eu precisava cuidar dele e que o trabalho me tomaria tempo demais. Lembro ter ficado muito triste e revoltada.

Na prática, me incomodo muito mais com esse tipo de situação do que meu namorado, que é completamente zen e quase nunca reclama. Nesse quesito, somos completamente diferentes, pois acho que seus direitos precisam ser reivindicados. Mas o fato é que o considero uma boa companhia, engraçado, um músico talentosíssimo. Sinceramente, quando alguém me pergunta como é se relacionar com um cadeirante, não sei nem o que responder, pois para mim ele é muito mais do que isso” – Bianca de Bem (@bianca.debem), 25 anos, atriz

“O fato de eu ser cadeirante foi o menos impactante na relação” – “Eu e o Márcio nos conhecemos em 2003. Nesta época, fazia três anos desde que eu havia sofrido um acidente de carro, perdido o movimento das pernas e passado por todo o processo de reabilitação. No dia em que nos vimos pela primeira vez, eu, que sou atriz, estava atuando. Por causa da sua profissão de músico, nós costumávamos frequentar os mesmos lugares e nos tornamos amigos. Mantivemos a relação assim até 2012, que foi quando ficamos pela primeira vez.

Mas as coisas não foram simples. Tivemos vários conflitos, nos envolvemos com outras pessoas e só conseguimos nos acertar em 2015. A partir de 2016 passamos a morar juntos e hoje temos um filho de 4 anos, o Francisco. Costumo dizer que o fato de eu ser cadeirante foi o que menos impactou na nossa relação. Quando nos juntamos, levei para a nossa casa minha mãe, que faleceu recentemente por conta do Alzheimer e o Márcio me auxiliou nos cuidados com ela. Tudo isso fora a nossa missão mais desafiadora, que é a de educar outro ser humano.

Somos responsáveis por uma série de coisas. Acredito que, por ter um círculo de amizades aberto à diversidade, ligado ao teatro e à música, isso me blindou de muitas situações de discriminação. Mas me lembro de uma vez em que ainda namorávamos e estávamos no Rio de Janeiro a passeio. Uma pessoa em situação de rua levantou da calçada, abraçou o Márcio e lhe disse: ‘Parabéns’, como se ele fosse um herói. Eu retruquei dizendo: ‘Parabéns para mim que o aguento’. Porém, não passou disso. Nossas famílias, por exemplo, sempre nos apoiaram.

Quando engravidei foi que senti mais o estranhamento das pessoas. Existe muito achismo e falta de informação na sociedade, que é resultado da falta de ocupação dos espaços por pessoas com deficiência. Se tivéssemos mais médicos com deficiência, mais enfermeiros, jornalistas ou publicitários, não seria tão estranho para a sociedade ver uma mãe cadeirante ou um casal como nós. Mas, o que vemos acontecer na prática é muito diferente. Uma menina com deficiência beijando no Carnaval vira um evento: é filmada, fotografada, aplaudida. As pessoas nos veem como assexuados. Os motéis dificilmente têm acessibilidade, por exemplo. E também sofremos com a infantilização: por duas vezes já apertaram minhas bochechas no ambiente de trabalho, coisa que jamais aconteceria se eu estivesse em pé” – Tabata Contri (@tabatacontri), 39 anos, atriz.

Duas garotas, lado a lado, olhando para a frente. À esquerda, a jovem possui uma doença congênita; à direita, sua namorada a abraça e sorri.

Vanessa e Thafyne se casaram, mas tiveram problemas com a aceitação da família.

“Já escutei que era uma aproveitadora por estar com ela” – “Eu e a Thafyne nos conhecemos em 2008, pela internet. Éramos fãs da mesma banda e isso nos tornou próximas. Porém, demoramos a nos encontrar: nós duas morávamos em Alagoas, mas eu vivia na capital, Maceió, enquanto ela morava na cidade de Penedo. Somente em 2012, quando ela veio para cá fazer faculdade, foi que começamos a sair com frequência e nossa amizade se fortaleceu. Até que, um ano depois, o sentimento ficou mais intenso e começamos a namorar. Desde então, não nos separamos mais e, no ano passado, casamos.

Tenho uma deficiência congênita que até hoje não foi diagnosticada e, infelizmente, situações marcantes com relação ao preconceito fazem parte da nossa história, tanto dentro do núcleo familiar quanto fora dele. Já ouvi, por exemplo, que era uma aproveitadora e que iria acabar com a vida da Thafyne, um pensamento de origem capacista que deriva da ideia de que somos um peso na vida da pessoa com a qual estamos nos relacionando. Outras pessoas com deficiência que conheço já passaram pela mesma situação. Fora as vezes em que fomos maltratadas em espaços públicos por demonstrarmos nosso afeto.

Estaria mentindo se dissesse que nosso relacionamento não precisou passar por um processo grande de desconstrução para que funcionasse, algo que partiu de ambas as partes. Mas acho bonito relembrar nossa trajetória. E acredito que o fato de termos nos aproximado como amigas inicialmente ajudou bastante nesse sentido” – Vanessa de Oliveira (@vanessagrao), 32 anos, social media

 

* Matéria de Ana Bardella, do site Universa, do UOL (clique aqui)

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