A escola e o adolescente com Síndrome de Down

25/06/2017 Colunistas, Deficiência Intelectual, João Eduardo, Notícias 1

O discurso é muito parecido, pelo menos nas maiores escolas privadas de Fortaleza. Imagino que seja semelhante no resto do país:

– “Por lei, nós somos obrigados a aceitar a matrícula do seu filho, se houver vaga na turma desejada. Mas, como nós não estamos preparados para receber um adolescente com deficiência, cabe à família refletir antes de decidir se aqui é realmente o local mais indicado para o desenvolvimento de seu filho. Talvez ele estivesse melhor em um local especializado, junto a outros na mesma condição”.

Parece sensato pra você? Onde o adolescente com Síndrome de Down estaria melhor incluído, ou onde seria mais feliz? Junto a pessoas com as mesmas características genéticas ou junto a pessoas diferentes?

Vamos tentar fazer um paralelo com a História da humanidade? As escolas foram feitas para pessoas semelhantes? A lógica de escola só para homens e outra só para mulheres lhe parece razoável até hoje? As mulheres têm uma visão de mundo diferente dos homens, não seria melhor estudarem em colégios separados?

A cultura dos negros também era muito diferente da cultura dos brancos na América do Norte do século XX. Não seria melhor uma escola só para os negros, onde eles seriam educados de acordo com sua condição?

Por favor, não considere que estou analisando de forma simplista um problema tão complexo. Mas, talvez seja importante tornar claro qual é o papel da escola na sua concepção de sociedade atual. A crença dos pais é fundamental na determinação da melhor escola para seu filho com SD.

 

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Vivemos uma crise educacional que exige um aprofundamento técnico para sua melhor compreensão, mas o importante no nosso tema de estudo é que os pais precisam acreditar no potencial de seus filhos para exercerem seu papel na sociedade e a escola é fundamental para que isso aconteça.

Todos os agentes envolvidos no processo educacional, pais, diretores, professores, técnicos, alunos, precisam estar conscientes das vantagens da diversidade para um bom aprendizado. O desenvolvimento integral do indivíduo, com ou sem deficiência, só será obtido quando lhe derem oportunidade de aprender com as diferenças, em todas as esferas do conhecimento. Inclusive no relacionamento interpessoal com pessoas de características e cultura diferentes das suas.

Importante ressaltar que esta breve introdução sobre a problemática da educação está inserida dentro do contexto maior que estou comentando nas últimas colunas, que é o da saúde das pessoas com Síndrome de Down. Exatamente, a escolarização é apenas um dos aspectos destacados pelo Ministério da Saúde como fundamental para a manutenção da saúde desses indivíduos, junto com a autonomia, a profissionalização, a socialização e outros aspectos apontados nas diretrizes divulgadas no site do Ministério.

Acredito que não podemos definir, a priori, qual é o melhor caminho para garantir a qualidade de vida e a inclusão social das pessoas com SD. Após muita discussão com a sociedade e com profissionais da educação, entendeu o legislador brasileiro pela fórmula da inclusão escolar plena, como uma obrigação da sociedade (ver Lei Brasileira de Inclusão). Assim, todos os indivíduos com SD têm o direito e o dever de freqüentar escola na modalidade e ensino regular, seja ela pública ou privada. A instituição especializada pode oferecer atividades e terapias complementares no contra turno, mas a regra é que todas as escolas estejam abertas para esta inclusão.

Não são poucos os casos de jovens com SD no Brasil que ingressaram na universidade e até completaram o nível superior. Recentemente, ocorreu mais um ingresso em uma cidade do interior do Ceará, confira esta reportagem aqui.

Trata-se de ressaltar que o caminho da universidade não deve ser a opção para todos os indivíduos com SD, até por que não é a opção para todos os cidadãos brasileiros, com ou sem deficiência. O que a sociedade não pode fazer é impedir este acesso, é excluir as pessoas com deficiência intelectual das escolas por não investirem corretamente em sua inclusão.

O desafio é encontrar o caminho adequado para que TODOS OS INDIVÍDUOS possam estar no ensino regular, beneficiando com as maravilhas da diversidade toda uma sociedade.

No próximo encontro, vou mergulhar com mais ênfase nas dificuldades de encontrar a melhor escola para crianças e adolescentes com SD. Até lá, sugiro aos pais que tragam este tema à baila em seus contatos com outros pais e pessoas envolvidas com educação. A situação ainda é muito desfavorável na maioria das escolas, mas o despertar dos pais pode trazer uma grande evolução para a sociedade ao incluir a diversidade de forma efetiva no ensino regular. Aguardo suas sugestões e críticas. Abraços.

NOTA DO BLOGUE: No dia 21 de setembro próximo, Sem Barreiras realiza II Fórum Sem Barreiras de Acessibilidade e Cidadania. O tema será EDUCAÇÃO INCLUSIVA.

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1 Comentário

  1. Fátima Azevêdo 25/06/2017 Responder

    Parabéns João Eduardo. Seus textos são sempre primorosos e escritos com o conhecimento de quem é expert no assunto. Se bem pensarmos, cada um de nós um dia já sentiu a experiência da exclusão seja em criança, adolescente ou adulto.É terrível. E quando chega na área educacional, direito de todos, pelo menos está na constituição, aí a coisa fica mais seria ainda. Parabéns pela abordagem clara e instigante, sobre assunto tão importante. Estamos juntos nessa luta. Grande abraço,
    Fátima Azevêdo

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