Homem em um escritório, sentado em uma mesa, com um tablet e um notebook a sua frente. No fundo, uma estante com vários livros

Carlos Pereira explica as origens do aplicativo Livox

16/02/2016 Deficiência Intelectual, Histórias de vida, Notícias 2
Três pessoas sentadas em uma esteira de exercícios físicos: um homem à esquerda, uma garotinha ao centro e uma mulher à direita, segurando um tablet

Carlos e sua esposa Aline Pereira, com a filha do casal, Clara, segurando um tablet com o Livox

Quando você decidiu criar o aplicativo?
Minha filha tinha uns três ou quatro anos e queria muito se comunicar. A gente fazia isso por meio de cartões. Por exemplo, se ela quisesse uma maçã, eu tinha de tirar uma foto da maçã, imprimir, recortar a imagem, plastificar e criar um cartão. A gente colocava tudo em um fichário para as imagens sobre comidas. Mas era realmente muito difícil. Pensei: “Vou fazer um aplicativo”. Comecei com o celular, mas depois comprei um tablet. Criei o Livox. Sou diretor de uma clínica de fisioterapia no Recife (PE) e outras pessoas com deficiência começaram a usar o Livox. Uma vez, uma mulher me perguntou se autista poderia usar. Eu disse que poderia, mas a gente criou algoritmos para as necessidades de quem tem autismo. Adaptamos o Livox para uma variedade gigantesca de deficiências.

Como você avalia a utilização da tecnologia para necessidades especiais?
Há coisas para pessoas com deficiência que são medievais. Precisam evoluir. Acho muito bem-vindo usar a tecnologia para minimizar, tornar a vida delas mais satisfatória. O mais complicado é que as pessoas acreditam que, investindo em tecnologia para pessoas com deficiência, não é possível ganhar dinheiro. Como as pessoas com deficiência são minoria, poucos se interessam em criar um aplicativo para esse público, apesar de, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), termos 1 bilhão de pessoas assim no mundo. É a maior minoria.

Quando você criou o Livox, já tinha a ideia de expandi-lo para além da sua casa?
Quando comecei a usar com minha filha, vi o impacto que teve na vida dela. Ela se alfabetizou com o Livox, escreveu uma história que foi publicada em livro, mas não consegue segurar um lápis e um papel. Conheço muitas pessoas com deficiência cujas famílias não acreditam no potencial delas, não pensam que elas podem se comunicar, se alfabetizar. Quando vi o impacto na vida da minha filha, sabia que isso poderia mudar a vida de muita gente.

Cinco pessoas posicionadas, uma ao lado da outra, de frente: uma mulher de vestido salmão, uma garotinha em um carrinho infantil, um homem de paletó, uma mulher em roupa executiva e um homem em trajes árabes

Carlos recebeu oferta de empresários árabes para levar o Livox para o mundo árabe

Além da alfabetização, em que outros pontos mudou o desenvolvimento da Clara?
Vou te dar um exemplo. Quando tenho alguma moeda, ofereço a minha filha e pergunto, pelo Livox, se ela quer guardar ou gastar. Ela tem um cofre e sempre diz que quer guardar. Perguntei o que faria com o dinheiro. Ela disse que, quando enchesse o cofrinho, compraria uma daquelas mochilas de rodinhas. Isso para qualquer um seria algo normal, mas muitos pais de pessoas com deficiência nem se dão conta de que seus filhos são capazes de entender o que é dinheiro, o valor de uma cédula. É muito importante dar a oportunidade de vivenciar isso.

O aplicativo recebeu o reconhecimento da ONU. Isso trouxe mudanças?
Sim, muitas. Em fevereiro (de 2015), a gente foi a Abu Dhabi receber esse prêmio, de melhor aplicativo de inclusão do mundo. Fomos os únicos a trazer um prêmio para o Brasil. O reconhecimento é excelente, mas o interessante é que, quando estávamos lá, um dos patrocinadores, representante de um consórcio de empresas da liga árabe, quis conversar comigo. Chegou assim: “Olha, quero falar com você por cinco minutos. Queremos distribuir o Livox. Vamos traduzi-lo, localizá-lo e vendê-lo para todos os países da liga árabe. Tem interesse”? Eu disse: “Tenho”. Ele apertou minha mão e falou: “Negócio fechado”. Daqui a uma semana, volto para a Arábia Saudita para a última apresentação técnica e a primeira venda para o mundo árabe.

Houve resistência quando você compartilhou o Livox como um negócio?
Mais por conta de que, no Brasil, as pessoas não imaginam o potencial que uma pessoa com deficiência tem. Fora daqui, há mais essa compreensão. Veja o Stephen Hawking: é um físico famoso, que usa um dispositivo parecido com o Livox. Quantos “Hawkings” a gente não tem perdidos no Brasil que não conseguem expressar sua genialidade? Costumo dizer que o conceito de igualdade é fornecer condições iguais a pessoas diferentes.

Você já pensa em outros projetos?
Estamos alterando algoritmos para que as pessoas com deficiência consigam responder até 10 vezes mais rápido. O Stephen Hawking disse que, embora se comunique com o aparelho, isso demora. Ele diz que se sente muito solitário por isso porque as pessoas não têm paciência para esperá-lo responder. Também vejo isso no Livox. O trabalho não para, sempre abrindo o leque de possibilidades para que pessoas com deficiência se comuniquem.

* Entrevista publicada no site do jornal Zero Hora

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2 Comentários

  1. Jose Renato 09/11/2016 Responder

    Olá, meu nome é Jose Renato (meu whatapp é o 19 9 82902400 ) me interessei muito pelo aplicativo linox e gostaria do contato (email) do Carlos Pereira. Aguardo retrno grato.

    • Victor Vasconcelos 12/11/2016 Responder

      Infelizmente, não tenho essa informação. Se conseguir, mando pra você. Abraço.

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