Grupo de vários pais, mães e crianças se manifestando em frente à sede da Unimed/CE, com um cartaz com o símbolo do Autismo e os dizeres: UNIMED MANTENHA O ABA

Unimed descredencia Clínica de atendimento do autismo

31/07/2019 Deficiência Intelectual, Notícias 0
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Pais e outros familiares de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) se reuniram, na manhã do último dia 12, em protesto contra a decisão da Unimed Ceará, que descredenciará a Clínica Imagine Tecnologia Comportamental (conheça aqui) a partir do dia 12 de agosto. A empresa atende a 169 crianças e presta atendimentos em domicílio de Análise do Comportamento Aplicada (ABA – Applied Behavior Analysis, na sigla em inglês).

“Quando foi em abril, a clínica comunicou pra gente que o tratamento ia ter que ser reduzido. Os pais vieram dizer que a gente não aceitava essa redução porque tinha indicação clínica pra ter o total de sessões que já vinham sendo feitas e a Unimed utilizou esse argumento pra descredenciar a Imagine”, conta Janiele Fernandes, advogada e mãe do pequeno João Lucas, de 6 anos. Ele foi diagnosticado aos 2 anos e é atendido pela Clínica Imagine.

Desde o diagnóstico do filho, Janiele visitou uma série de clínicas, porém, João não conseguia alcançar as metas estabelecidas pelo tratamento em nenhuma delas. “Ele tem uma disfunção sensorial, então se ele ficar muito cansado, com fome, se escutar muito barulho ou tiver muita luz, ele se desorganiza – ‘desorganizar’ é quando o pequeno entra em crise. Ele se joga no chão, bate em si mesmo, bate na gente, morde, puxa cabelo”. Foi nesse contexto que Janiele encontrou a ‘terapia’ ABA, feita através de uma equipe multidisciplinar composta por um atendente terapêutico, psicólogo, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional.

Segundo ela, o modelo mais indicado da terapia requer que as sessões sejam conduzidas em casa, onde a criança passa a maior parte do tempo. “Ela precisa aprender a escovar os dentes, a lavar a mão, vestir a roupa. Não tem como ela fazer as atividades da vida diária em uma clínica porque a criança vai ter algo chamado ‘dificuldade de generalização’, onde ela aprende a fazer só na clínica e em mais nenhum outro canto. É muito mais importante que ela aprenda a fazer em casa”. Com o tratamento, João teve uma mudança positiva, reduzindo comportamentos agressivos e passando a demonstrar mais afeto.


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Impensável

Para a dona de casa Vânia Franco, as sessões em casa resgataram esperança para o quadro de saúde do filho Matheus. Ele foi adotado aos 8 meses, quando recebeu o diagnóstico de paralisia cerebral. “O meu filho não se comunicava, não dava respostas consistentes, não recebia nenhum estímulo. Ele é cadeirante e tetraplégico, não tem controle do tronco nem da cabeça, nada. Não fala. Só sorria ou demonstrava desconforto”, diz.

Matheus teve contato com a terapia ABA aos 12 anos, e hoje, aos 14 anos, consegue se comunicar com pequenas placas, indicando o que quer e o que deseja vestir. “Ele sabe dizer onde está doendo, o que é fantástico. Isso era impensável pra mim há um tempo. Ele só se alimentava no pastoso, e ele conseguiu, através das bandagens colocadas pela fonoaudióloga, parou de babar. Com a saliva, ele passou a formar o bolo alimentar e passou a comer semissólido, já come a comida amassada”, comemora Vânia.

Se continuasse as sessões de terapia, Matheus poderia ser alfabetizado, conforme avaliou o psicólogo que o acompanhava. “Pra mim, é desesperador o que a Unimed está fazendo. Eu só quero fazer a diferença na vida do Matheus”.

Direito

Em nota, a Unimed Ceará informa que respeita o direito constitucional de manifestação de seus clientes da mesma forma que reconhece também a importância da causa em questão, ressaltando que, em outras ocasiões, “já recebeu parte dos manifestantes em sua sede e sempre esteve disponível ao diálogo”.

“A operadora, mais uma vez, reitera que o descredenciamento da prestadora Imagine Tecnologia Comportamental Ltda não foi uma decisão precipitada, tampouco insensível, tendo em vista que, antes mesmo desta deliberação, analisou de forma detalhada as opções mais adequadas (tanto em termos de estrutura, como equipe profissional) a serem repassadas aos clientes como alternativas viáveis e competentes para tal substituição”, destaca.

Os prestadores indicados pela Unimed Ceará foram o Adaptro Centro de (Re) Habilitação Integrado, o Instituto Neuropsicocentro de Ensino Ltda e o Centro Especializado em Autismo e Outros Transtornos do Desenvolvimento – CEATD, apontados como “referências no atendimento de pessoas com Transtornos do Desenvolvimento Infantil, como o TEA e outras desordens neurológicas”. “Ademais, referidos prestadores atendem inúmeros pacientes diagnosticados com TEA, inclusive em terapia ABA, e são reconhecidos pelos serviços prestados”, acrescenta.

Contudo, segundo Janiele Fernandes, nenhuma das três unidades realiza atendimento domiciliar, nem contam com atendente terapêutico. “Eu visitei essas três clínicas para me informar. A gente teria que contratar e pagar por fora, eles dariam treinamento e supervisão”, relata.

A advogada explica que algumas das famílias atendidas moram em outros municípios, como Maracanaú e Itaitinga, e teriam que lidar com um deslocamento de 4 horas para chegar à clínica e voltar para casa. “A gente aceita qualquer clínica, desde que façam o tratamento da mesma forma como vem sendo feita. A gente só quer manter o que já temos”.

Em tempo: Sem Barreiras entrou em contato com Fernanda Cavalieri, que assinou a coluna Autismo – O Espectro (aqui), neste blog, e ela disse o seguinte: “eles descredenciaram a clínica que estava prestando serviço domiciliar, com equipe integrada e estão querendo encaminhar para outras clínicas que não cumprem com a mesma carga horária. Então, a gente está negociando, tentando negociar, mas sem muito futuro. A gente já ajuizou a ação, não foi concedida a liminar e a gente está entrando com agravo agora”. Fernanda é pedagoga, uma das fundadoras da Associação Fortaleza Azul (aqui) e mãe de dois garotos gêmeos com TEA.

* Matéria de Bárbara Câmara, do jornal Diário do Nordeste

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